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Reinaldo Azevedo

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Joice: Os “babies” Bolsonaros e as fake news. Ou: passado, presente, futuro

Reinaldo Azevedo

22/10/2019 06h56

Baby nos ombros de Dino da Silva Sauro. Ah, bons tempos aqueles em que já não se falava de dinossauros como vozes do atraso…

A CPI das Fake News começa nesta terça a fazer audiências públicas para definir a sua rotina de trabalho. A intenção de convocar a deputada Joice Hasslemann (PSL-SP) já havia sido esboçada, e eu mesmo expressei certo ceticismo. Não dá para esquecer que, durante a campanha eleitoral, Joice "entrevistou" uma pessoa que teria participado de fraude em urnas eletrônicas. E tudo ficou por isso mesmo. O vídeo está aqui. Não sei se alguém tem a intenção de indagar a agora deputada a respeito. Como fraude não houve, trata-se de fake news.

Hacker das urnas à parte, a deputada evidenciou no programa "Roda Viva" desta segunda, na TV Cultura, que tem o que dizer a respeito, não é mesmo? Ela afirmou que pessoas ligadas a Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, filhos do presidente, participam de uma ação coordenada para espalhar fake news.

Com todas as letras:
"Quanto você tem assessor de deputado, pago por dinheiro público, fazendo memes e ataques virulentos, sendo bancado com dinheiro público, não parece que isso passe perto da moralidade".

Afirmou ainda estar "mapeando" perfis: seriam 20 do Instagram e 1,5 mil páginas no Facebook. Não poderia ter sido mais explícita:
"Tem alguns perfis, que já estão identificados, que inclusive fazem parte, estão ou estiveram nas mãos de assessores dos meninos, do Flávio, do Eduardo e do Carlos. Através dos ataques que foram feitos a mim, eu comecei a mapear."

A deputada anunciou que vai acionar o Ministério Público e o Conselho de Ética da Câmara, além de fazer um Boletim de Ocorrência.

Joice — que, durante a campanha, além de "entrevistar" o suposto hacker, simulou uma luta de boxe em que esmurrava e chutava uma personagem que representava uma caricatura da deputada Maria do Rosário (PT-RS) — classificou de "uma coisa muito baixa que não ajuda o Brasil" as montagens que a associam a uma porca. Em resposta, ela mandou para Carlos Bolsonaro a imagem de três veados.

RELAÇÕES TENSAS
As relações de Joice com os filhos do presidente — Eduardo e Carlos em particular — nunca foram as melhores. O seu estilo "deixa que eu chuto e corro pra galera"  não era compatível com o protagonismo, digamos, exclusivista da família. Mas foi feita líder do governo no Congresso mesmo assim, especialmente porque chegou à Câmara com a segunda votação, só perdendo para o próprio Eduardo. E está longe de se ser idiota. Era inexperiente, como parlamentar, como quase toda a bancada do PSL, mas criou uma rede de seguidores que lhe dava visibilidade. E soube aproveitar as oportunidades.

Bolsonaro resolveu pôr João Doria (PSDB) na mira mais cedo do que todos imaginavam. Próxima do governador de São Paulo, isso aumentou a desconfiança da filharada, que acredita ser ela a candidata "in pectore" de Doria. Seu nome na lista de apoiadores do Delegado Waldir foi a gota d'água.

E, com efeito, ela passou a ser tratada como os Bolsonaro e seus aliados tratam os inimigos. Já paga um preço.

Informa Mônica Bergamo:
"A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) seguiu perdendo seguidores nas redes sociais depois da crise no PSL —mas a debandada arrefeceu. No dia 17, ela perdeu 71 mil seguidores que curtiam sua página no Facebook. Já entre o domingo (20) e a segunda (21), 8 mil pessoas descurtiram o perfil. Uma das postagens dela na semana passada chegou a ter 22 mil reações de "raiva". O recorde de "love", com corações, foi de 4.220, segundo monitoramento da consultoria Arquimedes."

TRANSE BOLSONARISTA
A deputada é uma das personagens do transe bolsonarista. Cada grupo atira para um lado. Ela não apoiou, por exemplo, a última manifestação da extrema-direita nas ruas que pedia CPI da Lava Toga e demonizava figuras como Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP). Nesse particular, estava alinhada com Bolsonaro e os filhos, que se mantiveram distantes da patuscada.

Esse distanciamento já havia lhe custado o bombardeio da, se me permitem, "extrema-direita da extrema-direita". A exemplo dessa turma, no entanto, Joice é uma defensora sem reservas da Lava Jato — coisa que os filhos não são — e se identifica como "biógrafa de Sergio Moro".

Sua agora inimiga e ex-parceira Carla Zambelli (SP), por exemplo, a atacou por não ter apoiado o protesto dos reaças — que, note-se, não era do interesse do presidente. Na crise em curso, no entanto, Carla está com aqueles que Joice chama "os meninos" e ameaça tomar o lugar que um dia foi seu: musa da extrema-direita.

EXPULSÃO
Seu desempenho no Roda Viva parece indicar que ela cava, quem sabe, uma expulsão do partido. Deve estar nos seus cálculos a certeza de que perderá, sim, parte considerável do eleitorado, mas o manterá em número suficiente para cavar um lugar em outra legenda. Se expulsa, pode fazê-lo sem correr o risco de perder o mandato.

Uma coisa parece certa: a sua candidatura à Prefeitura de São Paulo pelo PSL subiu no telhado.

Ninguém sabe o que virá. A pior coisa que poderia lhe acontecer seria ser mantida no partido, porém sob permanente bombardeio interno.

Ela diz não ter medo e promete, como direi?, que "não vai ter golpe, vai ter luta".

A ver.

Joice ser convidada a falar na CPI da Fake News passou a ser agora uma imposição dos fatos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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