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Reinaldo Azevedo

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Lugar errado: coordenador político do governo vai para o centro da crise

Reinaldo Azevedo

22/10/2019 06h59

Luiz Eduardo Ramos,: coordenador político do governo nega acordo com Bivar e aliados (Foto Antônio Cruz/Agência Brasil)

A crise está longe do fim. E acabou tragando o próprio coordenador político de Jair Bolsonaro, Eduardo Ramos, o general que responde pela Secretaria de Governo. O grupo do PSL ligado a Luciano Bivar, presidente da sigla, o acusa de ter costurado um acordo que, no entanto, não foi cumprido. Como resultado do imbróglio, o deputado Eduardo Bolsonaro (SP) foi declarado o novo líder do partido. Sua primeira medida foi destituir os 12 vice-líderes, a maioria ligada a Bivar.

Desde o começo, o Planalto — leia-se: Jair Bolsonaro — deveria ter-se mantido longe do pastelão. Mas como isso seria possível se foi ele próprio a deflagrá-lo no dia 8 deste mês, quando disse a um apoiador que Bivar estava queimado? Tensões que vinham latentes entre apoiadores de Bivar e deputados que seguem a família Bolsonaro eclodiram. E o resto foi a sucessão de baixarias que se conhece.

Ramos nega ter feito qualquer acordo com Bivar. Mas o fato é que o coordenador político do governo telefonou ao presidente da sigla mal rompia o dia, às 7h. Na versão da por enquanto ala derrotada, o general teria proposto um tertius, um terceiro nome, que pudesse pacificar a legenda: nem Delegado Waldir (GO) nem Eduardo assumiriam a liderança. O partido também teria de se comprometer a rever a suspensão de cinco deputados, a saber: Carla Zambelli (SP), Bibo Nunes (RS), Carlos Jordy (RJ), Filipe Barros (PR) e Alê Silva (MG).

Se a versão espalhada pelos, digamos, "bivaristas" é verdadeira ou não, isso não dá para asseverar. Verossímil, ao menos, ela é. Às 11h45, Delegado Waldir fez um vídeo, visivelmente improvisado, em que abria mão da liderança. Não sabia, então, que os "eduardistas" já haviam protocolado uma nova lista que fazia do "Zero Três" o líder do partido.

Tanto não sabia que Waldir não toca no nome de Eduardo. Ele afirmou que abria mão da liderança e se colocava à disposição do novo líder, aproveitando para repudiar, uma vez mais, a interferência do Executivo em assuntos do Legislativo. Anunciou ainda que estavam suspensas as punições dos cinco deputados.

Se não foi isso o que Ramos acertou com Bivar, então é certo que a conversa acabou confusa. Eduardo concedeu entrevista às 12h25 dizendo não saber se era o líder do partido — provavelmente sim. No fim da tarde, anunciou a destituição dos vice-líderes.

O curioso é que ninguém podia jurar, até o fim desta segunda, que não surja uma nova lista nesta terça.

Jamais deixe de se fazer a pergunta essencial, leitor: mas por que brigam os pesselistas? Os dois grupos descobriram-se, respectivamente, donos de morais distintas e inconciliáveis? Um deles resolveu de súbito abrir-se à contemporaneidade, reconhecendo a diversidade e a pluralidade do mundo, em contraste com o outro: obtuso, reacionário, truculento?

Não! Eles professam rigorosamente os mesmos valores. O que a ala ligada à família pretende é destituir do comando a turma de Bivar, que já foi alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal, o que levou parte da bancada a constatar que, diante dos Bolsonaros, só uma atitude é aceitável: a submissão.

E, lembrem-se outra vez: o que está no horizonte é o controle de uma máquina multimilionária, que vai receber R$ 114 milhões do Fundo Partidário até o fim deste ano. Somado esse valor ao Fundo Eleitoral do ano que vem, estamos falando de algo em torno de R$ 700 milhões.

Esse é o valor moral da divergência.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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