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Intuo que Jair tem certo medo de Carlos. E os dois leões do fim da história

Reinaldo Azevedo

29/10/2019 07h17

Frame do vídeo sobre o "leão" Bolsonaro, atacado pelas hienas. Ao fim, sobram dois leões (Reprodução)

Não gosto de ficar "psicologizando" tudo o que vejo, mas também não posso ignorar o que vejo, certo?

Ao assistir ao vídeo infame já retirado do Twitter de Bolsonaro, mas que está em todo canto, resta evidente que existe uma parceria entre o pai, Jair, e Carlos, o filho.

Parcerias, no entanto, não se definem apenas por uma palavra. Elas também podem ser qualificadas.

Não sei, não… Acho que Jair tem um pouco de medo de Carlos. Talvez a relação não se esgote na simples admiração que o pai tem pelo filho, na gratidão pelos préstimos nas redes sociais.

Parece haver algo de perturbador por ali.

Repararam na cena final do embate ideológico-zoológico proposto pela infâmia?

A coisa termina com dois leões machos e adultos, como a dizer: "Aí, parceiro, botamos pra correr o STF, a OAB, a ONU e as hienas todas".

A coisa é óbvia demais para que eu não conclua: se um dos leões que se congratulam ao fim do embate é Jair, parece forçoso concluir que o outro é Carlos, não?

Ele se coloca como o guardião do pai.

Ou não o vimos, a despeito de qualquer justificativa razoável — e do protocolo —, a participar do desfile em carro aberto, sentado, quase em posição de guarda? Parecia dizer: "Esse pai é meu. O presidente também".

Algo deu errado nessa narrativa afetiva e precisaria ser arrumado.

Notaram? Flávio é o homem da economia interna da família Bolsonaro. Ainda que enroscado com o caso Fabrício Queiroz — ou melhor: por isso mesmo! —, é quem tenta cuidar, vamos dizer, das miudezas do dia a dia do poder.

Eduardo tem a pretensão de ser o intelectual da família — desde que não seja obrigado a debater câmbio, por exemplo. Mas o arranjo é mais ou menos este: Flávio vira-se para dentro do poder, para os bastidores, para os embargos auriculares. Eduardo quer o bolsonarismo como uma categoria de pensamento — caso, claro!, ele conseguisse manejar com competência esse vocabulário, o que não é o caso.

De qualquer modo, os dois conseguirão, na política ou fora dela, construir uma narrativa que um dia há de prescindir do pai — porque essa é a lógica da vida de todos nós.

Carlos está preso de um modo perturbador à figura paterna.

Por mais que Jair manipule consciente ou inconscientemente essa estranha devoção encalacrada, o fato é que ela lhe cria constrangimentos objetivos.

Sim, claro!, a primeira e mais relevante leitura a ser feita sobre a família Bolsonaro é mesmo o que ela representa, a sua origem, a que valores apela, que sentimentos desperta, que vínculos objetivos mantém com os setores organizados da economia etc.

Mas esse é o filtro ao qual deve ser submetido todo político, todo homem público.

No caso da relação Carlos-Jair, é preciso reconhecer a presença de uma excepcionalidade.

Eu teria um pouco de medo.

No filme dos leões, como viram, só restam dois para contar a história.

Nas suas postagens na Internet, o rapaz apela sempre a imagens finalistas, escatológicas (em sentido religioso), redentoras.

Faltam alguns parafusos nessa história, que costumam ser fornecidos pela vida adulta e autônoma. 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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