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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Editorial de O Globo: imprensa e poder têm relação transitiva. Na voz ativa

Reinaldo Azevedo

05/11/2019 16h41

O Globo publica hoje um editorial, com destaque na primeira página, em que lembra, nos seus justos termos, qual é o papel do jornalismo na sua relação com o poder. Há de ser transitivo, sim, mas nunca na voz passiva.

A imprensa não pode ser capturada pelo mandatário de turno. O Estado não pode ser sequestrado por vagas de opinião. Aliás, o jornalismo profissional se distingue da algaravia de grupos de pressão, opinionismo irresponsável e lobbies disfarçados de causa pública.

Nas sociedades livres, o jornalismo exerce o seu papel com a mediação das leis democraticamente pactuadas, das instituições que organizam o Estado, dos Poderes com o seu devido espaço de competência.

Um conjunto de circunstâncias que agora não vem ao caso fez com que balizas da democracia e do estado de direito fossem expostas e negociadas na xepa de imposturas, truculência e agressões contínuas à ordem legal.

Vocações autoritárias — algumas conhecidas, outras presumidas, e umas tantas reveladas pelas circunstâncias — se manifestaram e se manifestam, então, com desassombro.

Na defesa que faz do jornalismo independente, que não se subordina ao poder, que não se deixa capturar nem quer ser voz hegemônica e incontrastável porque exerce mecanismos de controle e vigilância da qualidade do que apresenta ao público, o editorial de "O Globo" é impecável.

E não! Não se trata de fazer da imprensa o polo oposto ao governo, um nicho de oposição, o outro lado do governo, pouco importando as suas ações. Agora mesmo, na edição online de "O Globo" e dos veículos do grupo, as propostas encaminhadas pelo Palácio ao Congresso são esmiuçadas, analisadas, submetidas a critérios técnicos. E certamente colunistas se manifestarão a respeito, segundo pontos de vista que podem não ser os abraçados por esses veículos em seu espaço editorial.

Eu mesmo já divergi de muita coisa publicada pelos veículos do grupo — e por aqueles nos quais trabalho, diga-se. A civilização democrática abraça a divergência e a pluralidade como precondição do desenvolvimento. Os autoritários de ontem e de hoje alimentam sempre a nostalgia de um passado que nunca existiu, em que a voz do poder e do comando, de forma virtuosa, definia a verdade aceitável.

Bolsonaro passa. A democracia sobreviverá a ele. Também porque temos uma imprensa vigilante.

Leiam a íntegra do texto.
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O lugar de cada um

Não é novidade. O presidente Jair Bolsonaro não tem apreço pela imprensa independente e profissional. Não tinha durante a campanha e continuou sem ter desde o primeiro dia no cargo. Ele diz que defende uma imprensa livre, mas suas palavras e atos comprovam que ele quer apenas uma imprensa que o bajule e que não busque noticiar os fatos como eles são, mas como ele gostaria que fossem. A essa altura, ele já sabe que jamais terá isso daqueles que praticam com zelo o jornalismo profissional. Certamente não terá isso dos veículos do Grupo Globo. Seus antecessores não tiveram, seus sucessores não terão.

E o motivo é simples. O jornalismo profissional está calcado em três pilares: isenção, correção e agilidade. Isenção significa ser independente de governos, partidos políticos, igrejas, grupos econômicos e lobbies. Ser correto significa apurar os fatos de tal modo que eles condigam no maior grau possível com a realidade dos fatos. Ser ágil significa informar com rapidez porque a informação jornalística, por definição, sendo uma primeira aproximação com a verdade, só tem valor se for tornada pública em tempo razoável. Sem esses pilares, não há jornalismo, não há veículos com credibilidade, não há público que se interesse por eles.

Não é sem razão que só exista jornalismo profissional e independente em democracias. Em sociedades sob o império das leis, mas sem dono, ninguém controla o fluxo dos fatos, o que publicar e o que não publicar, o que é conveniente e o que não é conveniente, o que agrada e o que desagrada. O fluxo de informação é livre, absolutamente livre. Em ambientes assim, sobrevivem aqueles que informam com qualidade, acertam bem mais do que erram (e quando erram reconhecem seus erros) e provam ao público que aquilo que noticiam são fatos. O Grupo Globo existe desde 1925 na mídia impressa, desde 1944 no rádio, desde 1965 na televisão (e nenhuma concessão recebida de militares, presidente), desde 1991 na TV por assinatura e desde 1995, na internet. E em cada uma dessas mídias, é líder de audiência e conta com o respeito e a credibilidade do público. Nenhum veículo jornalístico tem um desempenho desses se não for por mérito. O público, que é o mesmo que vota, sabe julgar. E o Grupo Globo fará de tudo para que continue a merecer a confiança e o respaldo do público. Sempre.

Ao longo desses 94 anos, o Grupo Globo obteve o respeito do público porque sempre se cercou dos melhores talentos, dos mais competentes jornalistas. Profissionais comprometidos com a verdade, íntegros, honestos, que se dedicam, com grande esforço pessoal, hora após hora, dia após dia, semana após semana, ano após ano, a dar o melhor de si em busca da informação de qualidade. A notícia não tem hora, costuma-se dizer nas redações. Muitas vezes, o dever profissional se impõe ao lazer, aos filhos, aos amigos, à família. Tudo na crença de que uma sociedade bem informada vive melhor, decide melhor, constrói um futuro melhor. Não há sociedade que caminhe para o bem-estar sem informação de qualidade, e quem a provê com método são os jornalistas. No Grupo Globo são os jornalistas de todas as redações, de todos os veículos que o compõem.

Chamá-los de patifes, canalhas e porcos não diz nada deles, mas muito dos valores de quem profere insultos tão indignos. É preciso repudiar tal atitude do presidente da forma mais veemente possível e denunciá-la como a de um homem que, hoje não se tem mais ilusões, não comunga dos valores democráticos mais básicos. Não se esperem, contudo, reações no mesmo nível. Espere-se mais jornalismo. Espere-se a busca pela verdade, de forma destemida, que retrate os fatos como eles são, positivos ou negativos, inclusive sobre o governo. E que denuncie qualquer tentativa de cercear as liberdades de nossa democracia.

São 94 anos, repita-se. Atos e palavras são o que definem o lugar de homens e instituições na História. O Grupo Globo tem orgulho do seu lugar, obra de gerações de jornalistas que passaram por ele. O tempo dirá o lugar que o presidente reservará para si.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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