Topo

Lula X Bolsonaro 1: À parte os xingamentos, Guedes vira o centro do debate

Reinaldo Azevedo

09/11/2019 20h11

No alto, Lula nos braços de aliados em São Bernardo (Foto: Eduardo Knapp/Folhapress). Acima, protesto na Paulista contra a libertação de petista (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

O dia raiou, e Jair Bolsonaro, que havia se calado na sexta sobre a saída de Lula da cadeia, o xingou de "canalha" nas redes sociais. Em São Bernardo, o petista discursou e chamou o presidente de "miliciano". Na Paulista, movimentos de direita e extrema-direita demonizavam o petista, o STF e a "Globolixo". No evento lulista, o ex-presidente desceu a marreta na Globo, no SBT e na Record. Como naquela música, "paroles, paroles, paroles…" Enquanto os manifestantes estiverem se comportando dentro das regras do jogo, nada que a democracia não possa suportar. E cada um, como num poema de Cecília Meireles, que escolha o seu sonho. As questões realmente relevantes estão em outro lugar. Duas palavras são as chaves: economia e Justiça. Vamos à economia.

Descontadas a linguagem de palanque e as palavras de ordem para inflamar a militância — é tudo do jogo —, o discurso de Lula tem um eixo estruturante: oposição à política econômica de Paulo Guedes. Sob certo ponto de vista, Bolsonaro não tem do que reclamar. A oposição de Lula à reforma da Previdência — ou a boa parte dela — e à reforma do Estado mantém unidos os chamados "mercados" em torno de Guedes e, pois, de Bolsonaro.

"Quantos votos têm os mercados?", poderia perguntar alguém. Em si, poucos. A questão está na influência que exerce e no volume de noticiário que consegue produzir na imprensa profissional. E dali salta para as redes sociais e para o zap-zap da sua tia.

Assim, para Bolsonaro, haver uma voz tão estridente a atacar a política econômica é, num primeiro momento, positivo. E por várias razões. Muitos setores do empresariado de diversas áreas já olham o governo com desconfiança e tateiam opções no terreno da direita e da centro-direita. É como se o "capitão" já tivesse feito a sua parte na "revolução". Busca-se (ou buscava-se) alguém com mais capacidade de diálogo, que não se lembre de fazer a apologia da ditadura ao mesmo tempo em que encaminha a reforma do Estado, que se esforce para estruturar minimamente uma base de apoio no Congresso.

Lula, queira ou não — e duvido que o ignore —, fortalece, de imediato, a posição de Bolsonaro como o líder tornado natural do antipetismo. Afinal, é o presidente quem dá o suporte de que Guedes precisa para levar adiante a sua visão de Estado — ou de não-Estado. Mas, por óbvio, isso não diz tudo.

Lula não teria escolhido a política econômica como eixo de seu retorno se não dispusesse de dados indicando a insatisfação de parte considerável dos brasileiros. Reformas, mesmo quando necessárias, costumam piorar as coisas para os de baixo antes de melhorar. É nessa hora que entra a voz do governante, do líder, do estadista, para, ganhando a confiança de parcelas consideráveis do povo, convencê-las de que é preciso atravessar o deserto antes de chegar ao poço abundante. Há um déficit óbvio de interlocução aí. Ou é mais do que déficit.

Já chamei a atenção para o fato de que o ministro da Economia queria incluir gastos com inativos no desembolso obrigatório com saúde e educação; pretendia congelar o salário mínimo e tem agora a intenção, ainda voltarei ao tema, de criar uma espécie de AI-5 nos gastos sociais, com uma justificativa que pode até fazer sentido contábil, mas que mistura alhos com bugalhos na história na civilização democrática.

Xingamentos, diatribes, bravatas, nada disso tem muita importância. A questão é saber se existe público para uma pregação centrada no combate às bases da política econômica. A minha resposta, sem entrar em juízo de valor, é esta: EXISTE. Tende a ter pouca repercussão na imprensa — pode até ser ampla, mas negativa. E será alvo, deixem-me ver, de sete entre dez economistas ouvidos. Por que "sete", Reinaldo? Ok. Nove! Como sabem, no entanto, Lula e Bolsonaro, a despeito dos ataques, a imprensa não é dona da agenda. O "miliciano" xinga o "canalha", mas ambos têm consciência de que, por um bom tempo, se precisam e se alimentam.

Com o coro dos contentes dos mercados a seu lado, Bolsonaro vai carregar no policialismo lava-jatista e na pregação ideológica. Lula deve ceder à provocação aqui e ali, mas Guedes — para felicidade imediata do presidente — será o seu saco de pancadas. Começou a corrida para saber quanto tempo vai demorar para que o receituário daqueles sete (ou nove) de dez economistas comece a mudar a vida dos pretos de tão pobres e pobres de tão pretos e também da classe média baixa que, já há tempos, não colabora para pressionar para cima a inflação. A contragosto, porque não compra, ela faz a sua parte na queda inédita dos juros…

Há dados colaterais a esse eixo econômico do confronto entre Lula e Bolsonaro. Deve diminuir, por exemplo, no bolsonarismo, a percepção de que a imprensa é a inimiga mais relevante do governo. E por duas razões principais: a primeira é a identidade de agenda entre Guedes e parte considerável do jornalismo profissional. E a segunda diz respeito às crispações que também o petismo vai provocar com a chamada "mídia".

Podem se preparar: veremos Bolsonaro e alguns de seus aliados mais extremistas posando de paladinos da liberdade de imprensa.

Aguardem a segunda parte do texto, que trata da Justiça. Com a senha dada por Dias Toffoli, presidente do Supremo, pretende-se transformar delegacia de polícia em política. Mais uma vez.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Reinaldo Azevedo