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Reinaldo Azevedo

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O discurso de Lula ainda é eficaz? Pergunte aos fatos, não à ideologia

Reinaldo Azevedo

09/11/2019 09h53

Lula ao lado de Rosângela, sua namorada, logo depois de deixar a cadeia (Foto: Ernani Ogata/O Globo)

Será que o discurso de Lula ainda tem eficácia?

A questão cobra exercício de futurologia. Faço análise e opino sobre fatos.

Mesmo com seu líder maior na cadeia e com a onda bolsonarista na sua crista, o PT, tendo como candidato o relativamente desconhecido Fernando Haddad, obteve 45% dos votos válidos.

Cumpre responder: um ano depois da eleição, o Brasil está melhor ou pior? Para quem?

Os grupos militantes de um lado e de outro já sabem a resposta, não é mesmo? Como não pertenço a nenhum dos extremos de opinião, observo que há dados na economia que apontam para uma recuperação discreta. Essa melhora ainda não chegou aos mais pobres. E vai demorar para chegar.

Quanto tempo? Não sei. Não me atrevo a fazer previsões porque não sou Paulo Guedes. Ele erra todas. Por que eu acertaria?

A reforma da Previdência era necessária. A reforma do Estado que foi encaminhada, escoimados exageros e sandices (porque os há), também.

Boa parte dos analistas conseguiria explicar por que, no longo prazo, essas mudanças podem — NÃO É UMA FATALIDADE — fazer bem os pobres. Além de, no longo prazo, muitos deles estarem mortos (aliás, todos estaremos), ricos e pobres votam no curto e no médio prazos.

Os mais endinheirados, que migraram em massa para Bolsonaro, não teriam por que mudar sua opção. Alguns apostam que os pobres do futuro um dia serão gratos a Bolsonaro e a Guedes. Por enquanto, as reformas são inócuas para minorar suas agruras. Ao contrário: podem até exacerbá-las. Isso é apenas um fato.

Está em curso, por exemplo, uma degradação no atendimento à saúde que não aparece no noticiário. E o serviço não vai melhorar nem no médio nem no curto prazos.

Lembrem-se de que estamos falando sobre a eficácia do discurso, sem juízo de valor.

O Nordeste do país, que votou em massa no PT, continua a ser uma terra estrangeira para esse governo, a despeito de raras incertas no presidente na região. Em algumas áreas, a gestão pode ser classificada de catastrófica. Vejam o caso da invasão das praias nordestinas pelo óleo vindo sabe-se lá de onde, por culpa sabe-se lá de quem.

O desemprego cai discretamente, mas o trabalho que surge é de baixa qualidade e paga pouco. A reforma administrativa chega, de novo, cavalgando a demonização dos servidores públicos — em especial dos mais humildes.

O governo tem de fazer um esforço danado, nem sempre bem-sucedido, para esconder sua óbvia demofobia. Guedes queria que os gastos com inativos de saúde e educação integrassem o mínimo constitucional obrigatório para as duas áreas. Também tentou congelar o salário mínimo e as aposentadorias. Bolsonaro surgiu no noticiário como aquele que conteve os excessos de seu ministro da Economia.

A operação de mídia foi bem-sucedida, sobretudo nos mercados ("Esse Guedes é foda mesmo!"), mas traz uma questão: isso quer dizer que o governo não tem ideia nenhuma para os pobres. E as políticas antes voltadas para eles perderam importância ou se tornaram irrelevantes, como o "Minha Casa Minha Vida".

Somem-se ao conjunto a aposta renovada do presidente e sua turma na intolerância política e a desordem de sempre, tendente a aumentar, na base de apoio… E agora recoloquem a questão da eficácia do discurso lulista.

APERITIVO
Para onde vai Lula? O aperitivo oferecido no pequeno discurso logo depois que deixou a cadeia foi esperto. Criticou, nem se poderia esperar outra coisa, Sergio Moro e o próprio Bolsonaro, deu a entender que vai percorrer o país e falou sobre a sua namorada. Em vez de incendiar o parquinho, preferiu a cena amorosa.

Vai falar de novo neste sábado. Os mais radicais de sua base certamente esperam um tom um pouco mais duro, mais revanchista, de confronto. É também o que quer Bolsonaro. Depende do petista morder a isca.

Lula nunca foi burro. E sempre houve vários em um só. Sabe manter mobilizada a militância — que, sem dúvida, é hoje muito menor — e é hábil como poucos na costura de alianças, não apenas à esquerda.

O líder petista vai percorrer o país para, claro!, levar a sua mensagem. Mas não duvidem de que também vai entrar de cabeça na formação de alianças para a eleição do ano que vem. Bolsonaro, em contrapartida, resolveu derrubar a casa que o abrigava: o PSL.

Dadas tais considerações, avalie se elas fazem sentido e decida, então, se o discurso de Lula ainda pode ter alguma eficácia.

Uma coisa é fato: ele já devolveu à extrema-direita uma razão de existir. Ela andava meio sorumbática e, em alguns casos, até reflexiva, ensaiando flertes com o pensamento.

Acabou a reflexão! Chegou a hora de xingar de novo o STF e de gritar "Lula na cadeia".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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