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Caos na Bolívia prova estupidez do golpe. E os militares latino-americanos

Reinaldo Azevedo

12/11/2019 08h19

Há fotos que valem por uma tese de sociologia e política. Bolivianos comemoram a queda de Evo. Você nota algo de, digamos, estranho na imagem? (Foto: (AP Photo/Jorge Saenz)

A Bolívia, que vinha crescendo à média de 4,5% ao ano e reduzindo a pobreza num ritmo acelerado para os padrões latino-americanos, com investimentos consideráveis em infraestrutura, está mergulhada no caos. E, se querem saber, nele vai continuar por um bom tempo, com um risco razoável de que não saia, reiniciando a espiral para baixo, velha conhecida do país.

Sim, Evo Morales, já escrevi aqui, fez tudo errado do ponto de vista institucional e golpeou três vezes as regras do jogo. Mas foi deposto por extremistas trogloditas. O tal Luis Fernando Camacho, que é a cara civil do golpe militar, está mais para chefe de hospício do que para um líder com capacidade para pacificar o país.

Tenho desprezo por gente que julga falar com Deus. Por que o Altíssimo iria escolher um boliviano extremista, de 1m65, para passar seus recados? "E se ele tivesse 1m95, Reinaldo, e fosse dinamarquês?" Eu estaria a indagar: "Por que o Altíssimo escolheria um dinamarquês extremista de 1m95 para etc…?"

O centro-direitista Carlos Mesa, que ficou em segundo lugar na eleição de 25 de outubro, foi engolido pelos porras-loucas da crise. Se e quando houver eleições livres na Bolívia, terá dificuldades de governar mesmo que vença. Os partidários de Evo Morales, que aceitou o asilo no México, tampouco são flores que se cheirem. Resultado: a Polícia pediu o Exército na rua. Deve haver gente salivando de satisfação no Brasil.

É evidente que o correto teria sido acatar a proposta de realização de novas eleições, sem impor a renúncia a Evo Morales. Era o que a oposição reivindicava, não é mesmo? A OEA estava lá, de olho. Acuado, é provável que o então presidente aceitasse concluir o mandato e escolhesse alguém do MAS (Movimento ao Socialismo) para disputar em seu lugar.

Em vez disso, tomou-se a vontade dos extremistas como a vontade de todo o povo boliviano. Como reconheceu o próprio documento da OEA, é muito provável que Evo tenha chegado à frente de Mesa. Isso significa que teve, sim, quando menos, algo em torno de 40% dos votos. O ex-presidente, reitero, golpeou a Constituição três vezes, mas é inegável que foi o primeiro líder da Bolívia, desde a independência, em 1825, a diminuir de modo sensível a pobreza no país. Tinha e tem base social.

Isso significa que, então, tudo lhe deveria ser permitido? A resposta, obviamente, é "não". E esse "não" estava em curso. O então presidente foi empurrado para admitir novas eleições. Era evidente que se tratava do caminho menos traumático, especialmente quando o processo praticamente impunha a renúncia, como aconteceu, dos presidentes da Câmara e do Senado.

A crise se extremou de tal modo que também o chefe da Polícia, Yuri Calderón, que ajudou a dar o golpe militar, teve de renunciar. O país está sendo governado pelo chefe das Forças Armadas, Williams Kaliman, que decidiu botar as tropas nas ruas. O risco de um banho de sangue é grande. Se os "evistas" decidirem recuar, nem por isso a estabilidade espreita a Bolívia. Muito pelo contrário.

EVO, LULA E OS MILITARES
É claro que Evo foi derrubado pelos militares. Renunciou para não ser preso. Deram-lhe a chance de sair do país. Há algo que iguala Evo e Lula. E não estou falando sobre a questão ideológica.

O petista foi o presidente brasileiro que mais equipou o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. E eu desafio militar da ativa ou da reserva a demonstrar o contrário. A fantasia bolsonariana de que o PT tratou as Forças Armadas a pão e água para facilitar a ascensão do socialismo não é só uma mentira. É uma estupidez também. Se vocês indagarem se existe alguma razão objetiva para as Forças Armadas fazerem severas restrições a Lula, a resposta é curta: "Não"! No que diz respeito aos interesses da corporação e aos fundamentos da defesa nacional, deveriam lhe ser gratos.

E com Evo Morales se deu a mesma coisa. Até porque a Bolívia nunca tinha vivido um ciclo de prosperidade tão longo — o país era conhecido por governantes que podiam ficar no poder não mais do que alguns meses —, o primeiro presidente de origem indígena foi especialmente generoso com os militares. Deu-lhes equipamentos, soldo, poder e prestígio. E eles o derrubaram. Assim como boa parte das Forças Armadas demoniza Lula sem que consiga dizer por quê.

Como esquecer o tuíte do general Eduardo Villas Bôas, então comandante do Exército, a ameaçar o Supremo em abril do ano passado, quando o tribunal votava o habeas corpus para Lula? E se o petista tivesse saído da cadeia? Ele teria dado um golpe?

A ideia de que os militares — em especial, o Exército — tutelam a sociedade ainda é muito forte na América Latina e é uma das expressões do seu atraso político. Não cederei à tentação de explicar que eles não foram feitos para governar. A propósito: Bolsonaro não é presidente militar; é um militar reformado que se tornou presidente disputando eleições.

O movimento que depôs Evo vai tentar fazer com que a população que ele despertou para a política retorne a seu lugar tradicional de exclusão. Não vai ser fácil.

Não! O presidente deposto não é inocente nessa história. Achou que poderia impor a sua vontade e que seu "aparato militar", tratado a pão de ló, não lhe faltaria. O Foro de São Paulo não existe na forma como imaginam os paranoicos e pilantras profissionais. Mas o foro militar latino-americano existe. E ele é ainda fanaticamente anticomunista e vê em grupos organizados, como os pobres que davam suporte a Evo, uma ameaça à segurança nacional. Por aqui é diferente? Não!

Por isso mesmo, governantes — pouco a importa a ideologia — devem prezar as instituições, jamais flertando com feitiçarias. Os confrontos havidos no Chile, por exemplo, foram muito mais graves do que aqueles que se viram na Bolívia. E nem por isso se ouviu a voz do Exército — e olhem que estamos falando de um país que já foi governado por Pinochet — a fazer ameaças ao poder civil.

Os presidentes chilenos pós-redemocratização respeitaram as regras do jogo. Inclusive agora, quando uma nova Constituição se impõe. Evo deu a chance, com seus golpes na Constituição, de fazer com que golpistas posassem de democratas. O povo boliviano pagará caro. A Bolívia volta à sua sina de país-símbolo da instabilidade.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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