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Chile mudará o modo de tratar pobres aplaudido pela direita xucra do Brasil

Reinaldo Azevedo

12/11/2019 08h20

Mais de um milhão de chilenos tomam as ruas no dia 25 de outubro. É claro que não era pelos 20 centavos (Foto: Cláudio Santana/Getty Images)

O Chile, que embalava os sonhos de certa elite brasileira que não curte muito a nossa gente escura, vai se rever. Quem diria… O direitista Sebastián Piñera decidiu deflagrar um processo constituinte. O modelo, que muitos pretendiam, sim, reproduzir aqui, fez daquele país o paraíso do perfeito idiota latino-americano de direita.

O Estado decidiu, lá nos anos Pinochet e debaixo de porrete — vou achar um clichê ao gosto dos falsos liberais brasileiros — sair do cangote do povo… Saiu também da saúde, da educação, da aposentadoria… E se fez um dos países mais desiguais da Terra. Mas as contas que apresentava ao mundo eram de encher os olhos.

Num primeiro momento, Piñera resolveu fazer o que a direita costuma fazer quando "aquela gente" protesta: descer o porrete. Chamou o Exército. Saldo: 20 mortos e 182 pessoas com lesões oculares — muitas perderam um olho —, atingidas por balas de borracha e outros artefatos de contenção de tumultos.

Sim, houve protestos violentos. Mas a repressão foi obviamente desproporcional. Imaginem se 247 pessoas morressem no Brasil protestando contra o governo. Há gente sonhando com isso por aqui porque, assim, poderia impor o seu AI-5… Não vai acontecer.

"Oh, mas por que protestam os chilenos? Tudo vai tão bem por lá…", espantava-se a direita xucra brasileira. E, claro, esses valentes não tardaram a fazer seu diagnóstico: isso tudo é um complô dos esquerdistas, dos marxistas, do Foro de São Paulo, do capeta… Não! Piñera reconhece, agora que seu governo tem muitos mortos e feridos nas costas, que o Estado chileno precisa rever seu pacto com a educação, com a saúde, com a… aposentadoria.

Dias desses, chegou-me às mãos um texto — realmente não lembro a autoria e não me darei ao trabalho de procurar — acusando, como é mesmo?, o intervencionismo do governo de Michelle Bachelet pela crise. É uma estupidez! Ela fez um esforço discreto de redistribuição da riqueza por intermédio de uma assistência à saúde e à educação menos iníqua do que aquela que existe hoje. E foi derrotada pelos conservadores.

A renda média de um chileno é bem superior à de um brasileiro. As contas estão por aí. A comparação é burra porque não leva em consideração os programas sociais que ainda estão em curso por aqui, alguns capengando, e que servem para relaxar tensões.

Reproduzo trechos da minha coluna na Folha de 25 de outubro, quando eram 15 os mortos:

A Dona Zelite brasileira deve, sim, prestar atenção ao que acontece no Chile. E não com o olhar invejoso com que o fazia até a semana retrasada.
(…)
A direita histérica resolveu apontar o dedo contra as esquerdas porque, afinal, o modelo econômico vigente naquele país é uma espécie de Disneylândia de certo entendimento de economia de mercado: direitos atrapalham o crescimento. E olhem que, por lá, a extrema direita teria de gritar: "A outra metade da nossa bandeira jamais será vermelha".

Nunca há uma única razão para eventos dessa natureza. Assistam, a propósito, ao excelente filme "O Mês que Não Acabou", de Francisco Bosco e Raul Mourão. Trata das jornadas daquele junho de 2013 no Brasil, lembram-se? Vê-se hoje que tais eventos —e isto digo eu, não é tese do filme—, trouxeram danos bem maiores do que o perigo. Estou entre as pessoas ouvidas.

Os protestos de 2013 fizeram um morto no Brasil: o cinegrafista Santiago Andrade. No Chile de 18 milhões de habitantes, já são 15, o que evidencia uma violência exponencialmente maior. Imaginem se, dados os nossos 210 milhões, 175 morressem cobrando isso ou aquilo do governo.

Não por acaso, o presidente Sebastián Piñera —que tonitruou, de início, um discurso que ecoava a era Pinochet— ensaia agora uma espécie de mea-culpa, reconhecendo disfuncionalidades no parque de diversões do livre mercado como um fetiche —e, pois, um vício.

A experiência dos chilenos com a violência política é muito mais traumática do que a dos brasileiros. A ditadura militar fez por aqui 434 mortos e desaparecidos. No pequeno Chile, 3.000. São 16,67 vítimas por 100 mil habitantes em números de agora. Em "brasileirês", estaríamos falando de 35 mil pessoas.

A história não justifica a violência, sempre detestável. Mas ajuda a explicar por que certas ilusões disruptivas podem ser mais fortes em alguns lugares.

A concentração de renda no Chile das contas arrumadas é obscena: dados da ONU de 2015 apontam que 0,1% da população detém 19,5% da renda. Caso se multiplique esse contingente por 10, chega-se ao 1% que detém 33%. Amplie-se o grupo para 5% dos chilenos, e lá se encontram 51,5% da renda.

"Desigualdade é irrelevante desde que seja grande a riqueza", dizem por aí. É? 1) Depende de quantos estão no piso e do seu valor. 2) Desigualdade se traduz em poder político, tendente a eternizar iniquidades.

Não há mais o que privatizar por lá nem reforma da Previdência a fazer. Já foi feita. Vigora no país, desde 1981, o regime de capitalização, sem contribuição empresarial, o que é uma aberração. O país que teria o 10º melhor sistema do mundo, segundo o Índice Global Mercer Melbourne de Sistemas Previdenciários, paga menos de um salário mínimo para 70% dos aposentados. Está quatro posições à frente do Reino Unido… É bom pra quem? Chileno pobre se recusaria a ter regalias de inglês pobre.

Grita o inconformado: "Todos os indicadores macroeconômicos e de renda do Chile são melhores do que os brasileiros". Nessa conta não entram benefícios que, por aqui, são renda indireta não mensurada e que servem, se me permitem, como "distensionadores" sociais: SUS, Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada, aposentadoria rural, Fies, ProUni, Minha Casa Minha Vida…

É bom Dona Zelite pensar direito ao propor modelos alternativos de Previdência —o chileno, dá para ver, não presta— e ser muito criteriosa na hora de cortar alguns direitos e gastos que, por constituir renda indireta para os pobres, ajudam a manter a estabilidade política.

Afinal, em certo sentido, Lula foi um grande contrarrevolucionário, não é mesmo? Será isso uma ironia?

Ah, sim: se alguém gritar, "Vai pra Cuba, Reinaldo", já posso responder: "Vai pro Chile inspirar gás lacrimogêneo".

ENCERRO
Volto ao dia de hoje. O governo do Chile, de direita, reconheceu a iniquidade do seu modelo. Não há nada que um dito liberal à moda brasileira queira que não exista no Chile. Ou melhor: não há nada que um liberal à moda brasileira repudie que exista no Chile. Ali está o Eldorado de certa elite brasuca.

É o sonho que os nossos ricos têm para os nossos pobres.

E muitos se espantam que os pobres possam sonhar outras coisas para si mesmos. Quando esses anseios vêm à tona, acham que é coisa do complô comunista e logo pensam em AI-5 — aquele, sabem, que, segundo certo general, seria preciso ver como operar.

Certamente também havia comunistas nas ruas. A verdade é que a maioria dos que protestavam, no entanto, incluindo os 75% da população que os apoiaram, também queria as delícias do capitalismo.

É isto: vai ver o capitalismo precisa ser mais generoso na distribuição de desigualdades…

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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