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Bolsonaro-China: de hostil a bajulador; Guedes propõe destruir a indústria

Reinaldo Azevedo

13/11/2019 21h55

Xo Xinping, líder chinês, e o presidente Jair Bolsonaro em encontro nesta quarta (Foto: Eraldo Peres/Associated Press)

O ministro da Economia, Paulo Guedes, encaminha reformas que são importantes — desde que se eliminem os exageros do fundamentalismo — para consertar certos estragos estruturais da economia. Ok. É preciso ir com ele até onde é razoável. Mas também é chegado a falar coisas que estão na estratosfera e que, se levadas a efeito, conduziriam o país para o buraco. Ou por outra: como um operador da realidade, está tratando de assuntos que restavam intocados. Como utopista, tem um lado lunático, que não resiste a um confronto com os números.

Vocês se lembram: até outro dia, capitaneada pelo ministro sem pasta Olavo de Carvalho, havia a campanha contra a China. Naquele famoso jantar na embaixada do Brasil em Washington, em 17 de março de 2019, estava presente o delinquente intelectual Steve Bannon, um dos mentores do deputado Eduardo Bolsonaro. Desceu-se o sarrafo na China, principal parceiro comercial do Brasil. E eu desci o sarrafo na turma toda — aqui e no meu programa de rádio.

Bolsonaro passou a campanha eleitoral toda dizendo que a China não queria "comprar do Brasil, mas comprar o Brasil". E seus seguidores associavam a afirmação à suposta internacionalização da Amazônia, que já pertenceria, em grande parte, aos chineses. Eram tempos, então, em que o bom negócio era fazer a genuflexão ao Pai do Ocidente, Donald Trump. Segundo artigo histórico de Ernesto Araújo, o presidente dos EUA tem até uma espécie de Deus sobre o qual exerce influência, o tal "Deus do Ocidente", que seria também o nosso. É teoria de relações internacionais que vem com tarja preta.

Guedes, é bem verdade, relativizou, então, a pregação anti-China e sugeriu que, bem…, se os EUA não nos querem tão próximos dos chineses, que comprem o nosso suco de laranja em vez de impor barreiras comerciais. Se bem se lembram, há dias, os EUA renovaram as barreiras fitossanitárias à nossa carne in natura. Levantar a interdição era parte do suposto entendimento de Bolsonaro com "meu (dele) amigo Trump". Levamos uma banana do chefão do Norte.  Mas também Guedes chegou a dizer certa feita que a China queria "comprar o Brasil", não do Brasil.

Agora, a coisa passa por uma mudança radical. A China recebe o tratamento de grande parceira, e assim tem de ser. E Guedes fala até em criar uma área de livre comércio, afirmando que o Brasil não se importaria nem mesmo de perder a posição superavitária que mantém na balança comercial com aquele país. Como?

Aí as coisas se complicam um pouco.

É bem verdade que o ministro já falou até em ter moeda única no Mercosul. Era parolagem. Também já especulou sobre sairmos do bloco. Idem. No momento, a posição do Brasil em relação à Argentina, o segundo maior comprador de manufaturas do Brasil, é de hostilidade.

Perder o superávit com a China? Em 2018, foi de US$ 29,2 bilhões, de um total de US$ 58,3 bilhões — pouco mais de 50%. De janeiro a outubro deste ano, o acumulado está em US$ 21,457 bilhões, de um total de US$ 34,823 bilhões. Vale dizer: a importância relativa da China cresceu: 61,61% do total. O superávit do Brasil em outubro foi de apenas US$ 1,206 bilhão, o pior para o mês em cinco anos.

Quando vamos para os detalhes dos números, as coisas se complicam.

De tudo o que Brasil exportou para a China em 2018, 88,9% são commodities agrícolas e minerais; 8.86% são semimanufaturados, e só 2,26% são manufaturados. Quando analisamos as importações, aí a coisa se inverte brutalmente: 97,8% do que importamos da China são produtos manufaturados — ou seja, industriais; 0,34% são semimanufaturados, e apenas 1,87% são produtos primários.

O Brasil tem, sim, um superávit comercial brutal com a China, e isso evidencia que essa é uma parceria que tem de ser mantida. Os investimentos oriundos daquele país são bem-vindos. Mas vamos devagar com o andor porque todos os países vão quando se trata da sua indústria: e isso inclui muito especialmente a China.

Temos o superávit, mas, na relação comercial, estamos gerando mais empregos de qualidade na China do que no Brasil. Papo de protecionista? Apontem uma economia relevante no mundo, excluídos os paraísos fiscais, que não tenha uma sólida base industrial. Se o Brasil permanecer no Mercosul, uma zona de livre comércio com a China teria de contar com a concordância dos parceiros. A Argentina não aceitaria. Se o Brasil deixar o bloco e partir para um empreendimento solo, a indústria brasileira perde as relações especiais que mantém com a Argentina, seu principal comprador, e será destruída pela indústria chinesa.

Guedes queria atacar o protecionismo. Está com vontade que alguém o defenda para poder bater boca e produzir frases de efeitos. Parece intelectual doidão do fim do Século XIX, que toma negócio esquisito e fala só "pour épater les bourgeois" ("escandalizar os burgueses) — isto é, com o propósito de causar escândalo, alvoroço.

O Brasil tem de querer os investimentos chineses e o mercado para as nossas commodities. Não precisamos destruir a nossa já combalida indústria porque Guedes sonha com um mercado mundial sem restrições. No mundo ideal, até poderia ser bacana. No mundo real, mais empregos brasileiros seriam destruídos.

É pura conversa mole. "Pour épater les bourgeois".
*
CORREÇÃO: A participação de semimanufaturados na pauta de exportações do Brasil para a China é de 8,86% do total, não de 24,9%.

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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