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Ato de ala bolsonarista foi mico; extremistas gritam “Moro acima de todos”

Reinaldo Azevedo

18/11/2019 07h42

Tiozão do churrasco tenta o molho de tomate ideológico na Avenida Paulista. Protesto foi um mico (Foto: Fábio Vieira/FotoRua/Folhapress)

As milícias digitais do bolsonarismo estão em pé de guerra. O arsenal de indignidades, truculência retórica e mentiras que costumavam empregar contra as esquerdas, a imprensa, os liberais — na verdade, qualquer coisa viva que não se ajoelhasse aos pés do "Mito" — é agora usado contra os aliados de véspera, os "parças", os "mínions", que se comportavam como replicantes. Olavo de Carvalho, dizem — de fato, não tenho paciência para suas mistificações autocentradas e já folclóricas —, passa boa parte do tempo atacando uma ala que se quer mais bolsonarista do que o próprio Bolsonaro. E essa ala existe. Não sem razão prática, Carvalho, o ministro sem pasta, a esculhamba. Bolsomínion existe para defender o chefe, não para pensar com os próprios membros inferiores.

Não fosse a retórica asquerosa desses exaltados órfãos, seria o caso de ter pena. Mas é impossível qualquer sentimento de empatia, ainda que pela via da caridade.

Bolsonaro chegou à Presidência da República hostilizando o Supremo, como sabem. Ainda neste domingo, alguns celerados foram à Avenida Paulista pedir a cabeça de ministros, exaltando, sim, o presidente, mas já com uma nova palavra de ordem: "Justiça acima de tudo, Sergio Moro acima de todos". Isso implica elevar o ministro a um grau superior ao do "Mito". Já escrevi aqui que o ex-juiz é hoje a referência da extrema-direita da extrema-direita.

Mas qual é a raiz do sururu?

É aquela decisão de Dias Toffoli, presidente do Supremo, que suspendeu inquéritos cuja origem eram relatórios detalhados de órgãos de controle — como o ex-Coaf (hoje UIF) e Receita. Tão detalhados que caracterizam, na prática, quebra de sigilo sem autorização da Justiça. Quem recorreu ao tribunal com um pedido de liminar? A defesa do senador Flávio Bolsonaro (Sem Partido-RJ), o Zero Um.

Aí a ala dos, como posso chamar?, bolsonaristas menos pragmáticos entrou em parafuso.

Afinal, foram treinados para berrar contra o Supremo; para jogar a sua patriótica baba verde contra os ministros; para pedir cabeças; para atuar como milícias digitais em favor da dupla Bolsonaro-Moro — e, por óbvio, tendo a Lava Jato como referência.

MAS E AÍ?
Toffoli põe a sua liminar para ser apreciada pelo pleno do tribunal nesta quarta. A tendência, avalio, é que o tribunal a endosse porque, mais uma vez, está em julgamento não exatamente a suspensão dos inquéritos, mas uma garantia constitucional. As quebras de sigilo estavam se dando ao arrepio das autorizações judiciais.

A decisão de Toffoli está correta? Pois é… Há um capetinha que fica aqui ao meu ouvido: "Diga que não! Se é bom para Flávio Bolsonaro, não pode ser coisa que preste…" Pois é. O capeta não orienta a minha vontade. O presidente do tribunal fez a coisa certa. Pouco me importa se A ou B gostam ou não da decisão.

O IBCCRIM (Instituto Brasileiro de Ciências Criminais), insuspeito de bolsonarismo — como sou… — fará sustentação oral em defesa da decisão do ministro na qualidade de "amicus curiae". Se querem saber, essa é uma daquelas coisas que nem deveriam estar acontecendo porque os fatos antecedentes jamais poderiam ter se dado. Chega a ser uma aberração que tenhamos de debater se é aceitável a quebra do sigilo sem a autorização da Justiça.

PRINCÍPIOS
Pois é… Quem tem princípios afinados com a democracia nem se espanta nem se enrola com esse troço. É o meu caso. Do IBCCRIM também. Por que os bolsonaristas estão trocando tapas na lama? Porque a ala "pragmática", percebendo que a decisão de Toffoli é, sim, boa para Flávio — pode ser uma pena, mas a lei tem de ser cumprida —, resolveu dar um tempo nos ataques ao Supremo. Olavo de Carvalho, com a imaginação de sempre, até chegou a desenvolver a tese de que a CPI da Lava Toga seria positiva para as esquerdas, ainda que estas, em regra, sejam contrárias à dita-cuja.

Esses "pragmáticos" pararam de atirar contra Augusto Aras, procurador-geral da República — que era chamado de "petista" pela tropa toda até outro dia —, obedecendo, mais uma vez, a circunstâncias que servem para diminuir a carga sobre Bolsonaro.

Onde está o cinismo dessa gente? Não faz tempo, alinhava-se com aqueles esquisitos que foram neste domingo à Paulista pregar o impeachment de ministros do tribunal. Sim, em certa medida, são mesmo traidores da causa dos, digamos, "puros". Ocorre que esses puros querem ver o seu "Mito" marchar de peito aberto contra o Supremo, contra a Câmara, contra o Senado… Na verdade, as suas aspirações só se realizariam com um golpe liderado pelo grande "condutor".

Ainda que o nome de Bolsonaro tenha sido exaltado neste domingo, a mobilização não contou com o apoio aberto da família. Com a volta de Lula às praças — este, sim, reuniu muitos milhares em Recife —, Bolsonaro se deu conta de que, por enquanto ao menos, é melhor manter interlocuções no Supremo a flertar com o fechamento do tribunal, como pediram alguns celerados. Sua ação para implodir o PSL já aumentou seu isolamento político.

Então notem: os que agora se fazem de pragmáticos são, na verdade, hipócritas porque renunciaram a alguns postulados, por mais estúpidos que fossem, de olho não em princípios, mas na vontade do "líder". Os que se dizem traídos continuam apegados à agenda original do bolsonarismo. Mas não se deram conta de que ela só pode se realizar com um golpe de Estado. Ou até se deram: ocorre que não haverá golpe.

O TEÓRICO
Olavo de Carvalho, o teórico que já não une, mas divide, ainda se esforça para convencer troianos e troianos da necessidade de cerrar fileiras em defesa do "condutor" e de sua infalibilidade. A mensagem subliminar que tenta passar, incompreendida pelos "puros", é que se está vivendo apenas uma etapa da luta contra o comunismo. É preciso fortalecer o "príncipe" do condomínio Vivendas da Barra para que este possa levar adiante o seu trabalho de higienização da política, livrando-a da pestilência esquerdista. Todos eles gostariam, claro!, de fechar o tribunal com um soldado e um cabo, sem nem precisar de um jipe. Mas agora não dá.

Os "puros", no entanto, não querem saber. Exigem que o "Mito" lidere a Marcha sobre Brasília, passando por cima das instituições e dos demais Poderes. Foram às ruas clamar por isso. Sem o apoio da Grande Família, o protesto deste domingo foi um mico. E então surgiu  nome de Moro "acima de todos",

Olavão vai ter de se desdobrar para fabricar teorias que amansem a tigrada.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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