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Moro e o óbvio: Bebianno deu a Pannunzio prova da suspeição contra Lula

Reinaldo Azevedo

20/11/2019 16h41

A entrevista do ex-ministro Gustavo Bebianno ao jornalista Fábio Pannunzio no canal "TV Giramundo", no Youtube, tem de ser chamada por aquilo que é: uma prova escancarada — e obtida por recursos absolutamente lícitos — de que Sergio Moro era, desde sempre, suspeito para julgar Lula e se comportava, à frente da 13ª Vara Federal de Curitiba, como um agente político.

Não que informações novas a respeito fossem necessárias para esclarecer o mérito da coisa. Afinal, todo mundo já sabe o que todo mundo já sabe… Diálogos divulgados pelo site The Intercept Brasil, por exemplo, entre aquele que iria julgar Lula e Deltan Dallagnol, o coordenador da Lava Jato, já tinham evidenciado que Moro conduzia a força-tarefa.

Este senhor chegou a oferecer uma testemunha contra Lula ao procurador. Este, por seu turno, avisou que recorreria a um expediente irregular para forçar a pessoa a falar. O juiz condescendeu. Um vexame. Um escracho. Uma vergonha. Em outra oportunidade, o chefe de fato da Lava Jato explica como, de caso pensado, manipulou a divulgação de gravações ilegais, dando um beiço no Supremo.

Mais: em novembro do ano passado, Hamilton Mourão, o vice, confirmou que Paulo Guedes sondara Moro para assumir o Ministério da Justiça ainda durante a campanha. Com estas palavras: "Isso já faz tempo, durante a campanha foi feito um contato". O próprio sondado confirmou a informação depois numa entrevista coletiva. Então qual é a novidade da entrevista de Bebianno a Pannunzio? Transcrevo trecho da fala do entrevistado:
"Há pessoas que sabem, o entorno ali. O Onix (Lorenzoni) sabe, o Paulo Marinho sabe, e outras pessoas próximas ali sabem também. O Paulo Guedes sabe. (…) O tempo passou, e aí veio domingo, o dia do segundo turno, na casa do Jair. (…) O Paulo Guedes estava na sala, me puxa, me chama, e fala assim: 'Bebianno, eu quero conversar com você uma coisa importante'. E foi a primeira vez que Paulo Guedes mencionou que estava conversando com Sergio Moro. Ele me contou que já tinha tido cinco ou seis conversas com Sergio Moro e que Sergio Moro estaria disposto a abandonar a magistratura e a aceitar esse desafio como ministro da Justiça".

Na entrevista, Bebianno afirma que Bolsonaro não sabia das articulações de Paulo Guedes. Bem, meus caros, como ele poderia ter ciência do que ambos conversavam? Afinal, o ex-ministro só pode falar com certeza do que ele próprio sabia e dos diálogos que ele próprio manteve, certo?

E aí está com todas as letras: Guedes não havia tido uma conversa com Moro, mas "cinco ou seis". O juiz já era uma peça da campanha eleitoral. Como esquecer que este mesmo Moro, a seis dias do primeiro turno, divulgou trecho da delação de Antonio Palocci — aquele que só não acusa a mãe porque, tudo indica, porque isso não poderia livrar a sua barra — que atingia em cheio o PT?

A Segunda Turma do Supremo ainda vai votar a suspeição de Sergio Moro. Serão votos que vão fazer história. Ministro que achar que o então juiz tinha isenção para julgar Lula estará, antes de mais nada, dando uma evidência do próprio caráter.

"Oh, não posso levar em conta as revelações do The Intercept porque a obtenção dos diálogos se de maneira ilegal…" Em primeiro lugar, pode, sim, porque não se trata de recorrer àquele conteúdo para condenar alguém, mas para reparar um dano óbvio a um réu e à própria lisura da Justiça. Em segundo lugar, e não menos importante, a entrevista de Bebianno nada tem de ilegal, irregular ou imprópria.

"Cinco ou seis conversas" antes da eleição com o juiz que, cinco dias antes do primeiro turno, larga uma bomba contra o grupo adversário daquele que o convidava reiteradamente para ser ministro. E ele aceitou o cargo.

Como? Você não acha isso tão grave? Então faça um teste para avaliar o seu próprio caráter: inverta as posições. Faça de conta que, nessa história, Bolsonaro é Lula, e Lula é Bolsonaro. E também simule uma situação em que o juiz tenha condenado o "Mito", impedindo-o de disputar a eleição com o petista, negociando depois, ainda como juiz, um cargo no futuro governo do PT. E depois dê seu veredicto: o juiz era ou não suspeito?

Se você ainda achar que nada havia de errado, das duas, uma: ou você é mesmo um crápula ou é um amoral. De qualquer sorte, é gente que não presta.

Com a palavra, os cinco ministros da Segunda Turma. Quem presta por ali e quem não presta?

Elio Gaspari se referiu na Folha à entrevista. Moro, com sua peculiar seriedade, enviou uma nota à Folha afirmando que foi sondado por Paulo Guedes para ser ministro só depois do resultado do segundo turno. Lá se lê:
"O ministro Sergio Moro reitera que, até então, não havia nenhum relacionamento ou quaisquer tratativas com Jair Bolsonaro ou Paulo Guedes. E que, portanto, repudia insinuações, sem nenhuma base, sobre a sua atuação isenta como juiz".

Entendi.

Bebianno deve estar mentindo.

Mourão deve estar mentindo.

O próprio Moro, aquele de antes, estava mentindo.

Vai ver o que fala a verdade é este Moro de agora, às vésperas de a Segunda Turma votar a sua suspeição.

Até quando este senhor continuará a destruir o estado de direito no Brasil?

Resposta: será assim enquanto mantiver, na condição de líder da extrema-direita, sequestrada parte considerável da própria imprensa.

Afinal, como se nota, ele é um homem que não gosta de corrupção. Nem da corrupção da Justiça, certo?

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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