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Que todos, judeus em particular, mirem a coragem moral e política de Sobel

Reinaldo Azevedo

22/11/2019 16h28

Henry Sobel: rabino foi um gigante na defesa dos direitos humanos (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Morreu na manhã desta sexta, em Miami, aos 75 anos, Henry Sobel, rabino emérito da Congregação Israelita Paulista. Tornou-se uma das vozes mais firmes e sensatas em defesa dos direitos humanos no Brasil. Um episódio conhecido, envolvendo o jornalista Vladimir Herzog, ilustra a sua coragem moral e política.

No dia 24 de outubro de 1975, Herzog, então diretor da TV Cultura, foi convocado a prestar esclarecimentos no DOI-CODI sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro, então na clandestinidade. Dirigiu-se ao local na manhã seguinte por conta própria. Entrou para não sair. Apareceu enforcado numa cela, com sua própria gravata, naquele mesmo dia 25. Versão oficial: suicídio.

Tinha sido assassinado, com evidências de tortura. A tradição religiosa judaica reserva um lugar no cemitério aos suicidas. A prática é considerada uma grave ofensa a Deus. Diante da certeza de que Herzog havia sido torturado e morto, Sobel não hesitou: decidiu que seu corpo seria enterrado na área comum. Houve, sim, resistência de alguns religiosos conservadores, mas o rabino bancou a decisão e, com isso, deixava registrado na história o que havia se passado no DOI-CODI.

No dia 31 de outubro, realizou-se na Catedral da Sé um culto ecumênico em memória de Herzog. Ao lado de Dom Paulo Evaristo Arns, estavam Jaime Wright e Henry Sobel. O evento reuniu cerca de 8 mil pessoas, na primeira grande manifestação contra a ditadura depois da decretação do AI-5.

Havia ordens expressas do regime militar, transmitidas ao então governador, Paulo Egydio Martins, para que o ato não acontecesse. Cerca de 500 policiais foram destacados para o local para intimidar os manifestantes. Fez-se, sim, um protesto eloquente pelo seu silêncio. E soou a voz de Dom Paulo: quem mata há de acertar as contras com a história e com Deus.

A coragem política e moral de Sobel tinha ali um emblema. Mas não se esgotou nesse caso. Ele foi, junto com Dom Paulo e Wright, um dos organizadores do livro "Brasil Nunca Mais", publicado em 1985, ainda na vigência da ditadura, que trazia a lista de mortos e desaparecidos durante a ditadura militar.

Não custa lembrar: três meses depois da morte de Herzog, foi assassinado no mesmo DOI-CODI, no dia 16 de janeiro de 1976, o operário Manuel Fiel Filho. Os porões tinham sede de sangue. O então presidente Ernesto Geisel mandou exonerar Ednardo D'Ávilla Mello, comandante do 2º Exército, que respondia pelo DOI-CODI, e Confúcio Danton de Paula Avelino, que chefiava o Centro de Informações do Exército, que comandava as ações de inteligência que resultavam nas prisões.

O livro "Brasil Nunca Mais" ganhou a sua versão de contestação, escrita por um torturador: "A Verdade Sufocada", do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que comandou o DOI-CODI entre 1970 e 1974. É o livro de cabeceira do presidente Jair Bolsonaro, segundo ele próprio.

Que todos os brasileiros, em particular e por motivos evidentes a comunidade judaica de São Paulo e do Brasil, honrem sempre a memória de Henry Sobel. Ele defendeu os direitos humanos. Ele se opôs à barbárie. Ele enfrentou a mentira e honrou a tradição com a verdade.

 

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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