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AMIGÃO: primeiro Trump bate, e, depois, Bolsonaro apanha. Não parece justo?

Reinaldo Azevedo

03/12/2019 06h49

FACES DA RELAÇÃO: em um, há o esgar da superioridade arrogante; no outro, os índices todos do deslumbramento servil. Quem faz o quê? (Foto: Jim Watson – 19-03-2019/AFP)

Se Donald Trump é mesmo o amigão poderoso do presidente Jair Bolsonaro, temos de começar a rezar quando ele encontrar um inimigo de vulto… Não deixa de ter a sua graça patética: o presidente brasileiro é valente com Evo Morares, presidente deposto da Bolívia; com Nicolás Maduro, que comanda o caos venezuelano de cada dia, e com Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, que herda uma economia em frangalhos. Mas evidencia torpor e submissão quando leva uma rasteira de seu amigo de fé, irmão, camarada.

A diplomacia brasileira, sob o comando de Ernesto Araújo, é tão boa e eficaz que Bolsonaro ficou sabendo pelo Twitter, a exemplo do resto do mundo, que Trump decidira sobretaxar o aço e o alumínio brasileiros. E o anúncio se fez acompanhar de uma acusação: o Brasil estaria manipulando a taxa de câmbio, desvalorizando artificialmente o real, para tornar mais competitivos os produtos agrícolas exportados.

Escreveu:
"Brasil e Argentina desvalorizaram fortemente suas moedas, o que não é bom para nossos agricultores. Assim, com vigência imediata, restabelecerei as tarifas de todo aço e alumínio enviados aos Estados Unidos por esses países"​.

O que lhes parece? Desde que o presidente brasileiro anunciou que havia estabelecido relações especiais com o americano, tomou as seguintes pancadas:
– não conseguiu abrir o mercado americano para o açúcar;
– não conseguiu abrir o mercado americano para a carne in natura;
– não obteve o apoio dos EUA para o ingresso na OCDE, embora tenha cedido à pressão de Trump e concordado em abrir mão das vantagens de país em desenvolvimento na OMC;
– vê agora o anúncio de sobretaxas para o alumínio e o aço;
– é acusado de manipular o valor do real, embora o câmbio brasileiro seja flutuante.

A única manipulação, diga-se, deu-se em sentido contrário: o BC inundou o mercado com dólares para diminuir a cotação da moeda americana, aproveitando-se do acolchoado que tem de reservas, acumuladas nos anos de ouro das commodities, que se deram sob a gestão Lula.

A soja brasileira está competindo com a soja americana nos EUA? Não! A questão, mais uma vez, e a China. É lá que o nosso agronegócio está sendo mais competitivo do que o americano. Como seria irrelevante taxar o grão, então Trump anuncia retaliação em outro setor.

Segundo Araújo, o grande pensador da nossa diplomacia, temos em comum com Donald Trump o mesmo "Deus do Ocidente" contra o capeta do globalismo… Sabem como é. Por aqui, o Senhor está acima de todos. Para o presidente dos EUA, ele também um antiglobalista, a América está acima do tal Deus ocidental que tanto seduz Araújo. E não viu problema nenhum em dar uma banana para seu grande aliado.

Bolsonaro ficou aturdido. Não tinha o que dizer. Engrolou algumas palavras, afirmando que iria conversar com o presidente americano — depois, claro!, de falar com Paulo Guedes, que também se fechou em copas. Ultimamente, o ministro tem preferido pôr a sua sabedoria a favor da política, já que percebeu a óbvia desaceleração da agenda econômica. Na mais recente investida, resolveu justificar o AI-5 do passado e acenar com um AI-5 do futuro. Sabem como é… A modernização não pode esperar.

Mas Bolsonaro, afinal, tomou a iniciativa de falar com Trump? No fim do dia, Rêgo Barros, o porta-voz, informou que, por ora, o brasileiro não vai procurar seu homólogo americano porque é preciso, primeiro, conhecer todos os dados da equação. E isso significa o seguinte: o governo não tinha a mais remota ideia do que estava em curso. Levou um susto com o açúcar, com a carne in natura, com o "dane-se" sobre a OCDE e agora com o anúncio da sobretaxa.

Reverente àquele que considera seu chefe espiritual, Bolsonaro decidiu dispensar os americanos de visto sem pedir contrapartida; elevou de 600 milhões de litros para 750 milhões a cota de etanol importada dos EUA sem tarifa; transformou parte da Base de Alcântara, que será usada pelos americanos, numa espécie de base militar, uma vez que os brasileiros não terão acesso a parte do complexo; ficou a um passo de entrar na loucura de Trump, que achou que era a hora de derrubar Maduro — foi Hamilton Mourão, o vice, a segurar os malucos…

A América acima de tudo, e Trump acima da América. Ele está falando a Estados que competem com o agronegócio brasileiro e já está no modo "reeleição". Pois é… Se as ameaças se cumprirem, o Brasil se torna ainda mais dependente da China, que era o reino do mal a ser combatido, lembram-se?, há alguns poucos meses.

Mas, é claro!, também isso não tem importância, segundo a versão oficial, a exemplo do real acima de R$ 4, lembram-se? Guedes pediu para a gente se acostumar. Mal acostumado é Trump…

E que se note: o anúncio feito pelo presidente americano é tão esdrúxulo que é, sim, possível que volte atrás. Nem por isso os EUA terão estabelecido relações especiais com o Brasil. Os sucessivos chutes que o governo Bolsonaro levou no traseiro provam que não.

A relação está assim: primeiro Trump bate, e, depois, Bolsonaro apanha.

Não parece justo?

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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