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Um assombro na Biblioteca Nacional. Um dia isso passa: não vale esquecer

Reinaldo Azevedo

03/12/2019 06h47

Rafael Nogueira: ele ficará com a Biblioteca Nacional. Chega a ser assombroso! (Foto: Bruno Santos/Folhapress)

O bom senso e o senso de ridículo vivem o seu pesadelo. Para a Biblioteca Nacional, foi nomeado outro olavete: Rafael Alves da Silva, que se apresenta, sabe-se lá por quê, como Rafael Nogueira.

Credenciais para ocupar o cargo? Bem, ele as revelou em um texto em seu site:
"Não aguento mais perder livros na minha biblioteca. O problema de ter muitos é que, se não estiverem muito bem organizados, quando você quer um livro e não o acha, pensa até em comprar outro para não ter que persegui-lo por todos os cantos, estantes e móveis."

Um pensamento que há de ficar para a história. Leitores compulsivos acabam alcançando essas extensões do pensamento que fogem a boa parte dos mortais. Se não entendemos o que há de profundo no trecho acima, a culpa só pode ser nossa.

Leio na Folha sobre o Nogueira que é Alves da Silva:
"Graduado em filosofia e em direito e com mestrado em educação em faculdades de Santos (SP), Nogueira também é professor e já deu aulas particulares de humanidades e de redação para o Enem. Ele também está à frente do Ciclo de Estudos Clássicos, projeto pelo qual dá palestras em diferentes cidades sobre temas como Independência e Primeiro Reinado, fundação dos Estados Unidos e livros de Olavo de Carvalho."

Quem melhor para assumir a Biblioteca Nacional?

Informa o Estadão:
Em texto publicado nas redes sociais, Nogueira contesta dados oficiais sobre negros serem mais assassinados do que brancos no Brasil.

"Se o reconhecimento científico de quem é negro e quem é branco é impossível, o reconhecimento estatístico só pode ser feito por razões de aparência, reconhecimento de cor ou auto-identificação. Quem diz que alguém é negro? O IBGE. Como? Por meio de pesquisas nas quais a pessoa, assim como no caso do gênero, pode se dizer negra a despeito de ser resultado de mestiçagem complexa", escreve o novo presidente da Biblioteca Nacional.

"Então, na verdade, não são negros os que mais morrem, são aqueles que se reconheceram negros ou pardos de forma relativamente arbitrária. Como os institutos de pesquisa têm apontado que a maioria da população é negra (pelos novos critérios elásticos já mencionados), então, é natural que numa maioria negra a maioria dos crimes sejam cometidos contra negros, certo?", complementa Nogueira.

A tolice é tal que nem errado o, digamos, raciocínio consegue ser.

Ah, sim: o rapaz é monarquista. Espera-se que, em breve, um colega de militância seja indicado por Roberto Alvim, secretário da Cultura, para o comando do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Trata-se do empresário Olav Schrader, formado em relações internacionais. Também ele quer um Brasil que tenha fé, lei e rei.

Na semana passada, Alvim indicou para a presidência da Fundação Palmares o jornalista Sergio Nascimento de Camargo, segundo quem a escravidão acabou sendo benéfica para os negros brasileiros. Camargo é negro.

Já nem se trata de lamentar o reacionarismo deste ou daquele. O que assombra é a burrice, a falta de currículo, a inexperiência e o brutal ressentimento que emana dessa gente.

Mas ressentidos com o quê? Sabe-se lá… Exceção feita a Alvim, que chegou a ser um dramaturgo com algum destaque, essas pessoas permaneceriam na mais absoluta obscuridade não fosse Jair Bolsonaro.

Todos eles representam justamente a negação da meritocracia que, em tese ao menos, constituiria um dos valores deste governo.

O que se está operando é o desmonte de órgãos públicos sob o pretexto de promover uma faxina ideológica em entes do Estado, que estariam tomados por esquerdistas. A mão-de-obra disponível na extrema-direita para realizar o serviço sujo é essa.

Cumpre-nos fazer o registro e a crítica. Um dia esse troço passa. Só não vale esquecer.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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