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Corpos negros e pobres não podem ser fator de ajuste de discurso eleitoral

Reinaldo Azevedo

06/12/2019 07h35

Cruz, acompanhada de um rosário, instalada por moradores lembra o massacre de Paraisópolis (Foto: Yago Salles/Metrópoles)

Uma ação da Polícia Militar na favela de Pararaisópolis, em São Paulo, resultou na morte de nove jovens na madrugada de sábado para domingo. Convenham: era desnecessário que vídeos viessem a público evidenciando a barbárie para que se constatasse a ação desastrada da Polícia Militar. Ocorre que a corporação obedece a escolhas políticas feitas pelo governador. E João Doria, do PSDB, foi inequívoco na entrevista que concedeu na segunda:
"A política de segurança pública não vai mudar. As ações na comunidade de Paraisópolis e em outras comunidades de São Paulo, seja por obediência da lei do silêncio, por busca e apreensão de drogas ou fruto de roubos, vão continuar. A existência de um fato não inibirá as ações de segurança. Não inibe a ação, mas exige apuração".

O "fato" a que se referia o governador era a morte de nove inocentes.

Reitero: a coisa em si já era grave o bastante para determinar, quando menos, que se procedesse a uma revisão dos protocolos. Mas nada. Doria resolveu endurecer o coração, como o faraó bíblico.

Nesta quinta, o tom mudou radicalmente:
"É uma circunstância inaceitável que a melhor polícia do Brasil utilize de violência ou de força desproporcional, sobretudo quando não há nenhuma reação de agressão (…). Como governador do estado de São Paulo, eu não aceito que, no estado onde, tendo sido eleito governador, esse tipo de procedimento exista. E não mais vai existir. Ou, pelo menos, faremos tudo para que isso não aconteça. E revisar protocolos, revisar treinamentos e comandos para que nenhum policial militar aja dessa maneira (…). Eu mesmo fiquei muito chocado quando vi as imagens que não eram de Paraisópolis agora, num outro momento, de outubro, onde um policial militar agredia jovens que estavam saindo, não sei se de uma sala ou de uma área, desnecessariamente, gratuitamente".

Os vídeos que tinham vindo a público antes da entrevista de segunda já eram suficientemente chocantes para mover o coração do governador. O que aconteceu entre segunda e quinta? Além de novas evidências de atuação truculenta e ilegal da PM em favelas na repressão aos pancadões, duas personalidades se manifestaram.

Já na segunda de manhã, o presidente Jair Bolsonaro, antípoda no governador no território da extrema-direita, resolveu ter um breve surto de humanismo, bem curtinho mesmo. Afirmou: "Eu lamento a morte de inocentes". Na quarta-feira, foi a vez de Sérgio Moro, ministro da Justiça, que já foi condecorado pelo tucano, comentar o episódio: "Nesse caso em São Paulo, com todo respeito à polícia, à PM de São Paulo, que realmente é uma corporação de qualidade, elogiada no país inteiro, aparentemente, houve lá um excesso, um erro operacional grave, que resultou na morte de algumas pessoas."

Como o pudor político, intelectual e técnico não é o forte do ministro, ele comentava a ação enquanto fazia a defesa da excludente de ilicitude, que é a carta branca para matar que ele defende para as forças de segurança. E se saiu com uma desculpa que deve convencer idiotas: "Em nenhum momento ali existe uma situação de legítima defesa".

É um espanto. Moro queria alterar o Código Penal para que o juiz pudesse reduzir a pena por excessos policiais, ou nem aplicá-la, se tais excessos decorressem de "escusável medo, surpresa ou violenta emoção." Convenham: os policiais poderiam alegar as três coisas. É do balacobaco!

Mais do que Bolsonaro, é Moro hoje a figura cultuada pela extrema-direita no país. Mas, convenham, não só por ela: seu público é mais amplo do que o de Bolsonaro e coincide, não é preciso ser muito sagaz para percebê-lo, com o eleitorado de Doria e com pessoas sensíveis à sua pregação.

O governador começava a ficar sozinho na defesa da truculência, endossado, no máximo, por alguns trogloditas das redes sociais. Não só isso: à medida que passava o tempo, vídeos em penca, oriundos de diferentes áreas pobres da cidade, evidenciavam que a truculência da PM na repressão ao funk e até ao samba não é uma exceção, mas uma regra; não é fruto do descontrole momentâneo de policiais, mas uma política; não é mero surto de violência — episódico, pois —, mas método. Sim, antecede seu governo. Mas não mudou com ele. Tudo indica que aumentou a truculência.

E que fique registrado ainda outra vez se não está claro: não se trata de o poder público entregar o controle de áreas da cidade a grupos para que promovam o que lhes der na telha. É claro que os pancadões afrontam direitos também dos moradores de Paraisópolis. Quem os promove? Como se fala com essas pessoas? Como disciplinar a atividade? No que diz respeito à segurança, isso se resolve com ações de inteligência. E o governo tem de chamar a Secretaria de Cultura e as que cuidam da área social para estabelecer o diálogo. Não dá para ser na base do tiro, porrada e bomba. Matam inocentes.

O governador recuou também porque se assistiu a uma rápida mudança da percepção da população sobre o que se passou em Paraisópolis. Na segunda, parecia uma boa ideia aquele papo de "não vamos recuar", "a culpa é dos organizadores", "a polícia cumpriu a sua missão".

Ocorre que os mortos tinham rosto, história, família, identidade. Eram uns de nós. Filhos como os outros filhos da população de São Paulo, cujas mortes fizeram sofrer mães como as outras mães de São Paulo.

Que fique uma lição: corpos negros e pobres não podem ser fator de ajuste de discurso eleitoral. Tampouco podem servir à disputa entre Doria e Bolsonaro — ou Witzel e Bolsonaro — para saber quem consegue falar mais ao fígado dos reacionários que infectam as redes sociais.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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