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General de Bolsonaro enquadra Moro e manda recado ao serpentário do Palácio

Reinaldo Azevedo

11/12/2019 07h21

General Luiz Eduardo Ramos: uma entrevista lhana. E com alguns recados (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

Se o governo de Jair Bolsonaro tivesse, vamos dizer, a leveza — e não estou sendo irônico — da entrevista concedida à Folha pelo general Luiz Eduardo Ramos, o país estaria mais tranquilo. O ministro da Secretaria do Governo — que tem sobre a mesa a planilha com os cargos, seus ocupantes e respectivos padrinhos — é o homem da articulação política e da interlocução com o Congresso. Segundo diz, tudo vai bem, ainda que se ouçam descontentamentos vários. Vamos ao que há de mais relevante na fala.

Ainda que a eventual intenção tenha sido outra, Ramos — que é um militar com trajes civis, como fez questão de destacar — deu uma enquadrada no ministro da Justiça, evidenciando, e isto não é matéria de querer, que a largueza com que o ministro se move e sua popularidade são matéria de preocupação.

Depois de ter feito uma consideração que me pareceu correta sobre a popularidade de Bolsonaro — a notícia é que ele parou de cair e talvez tenha até melhorado um pouco —, deu a seguinte resposta quando indagado sobre a avaliação que faz a população sobre o trabalho do ex-juiz:
"É um cara muito bem respeitado, é um ícone do Brasil. É inegável, ele catalisa. Agora, ele é extremamente leal ao presidente. Ele diz que não é candidato, e eu acredito. A não ser que ele mude, não vai ser candidato."

A pergunta era esta: "E como o sr. vê o fato de o ministro Sergio Moro continuar sendo o mais bem avaliado?" Notaram? O "cara" é visto segundo a ótica de um potencial adversário de Bolsonaro nas urnas. Talvez essa tenha sido, vamos dizer, a mais "militar" das respostas dadas pelo ministro que veste terno sem jamais esquecer que sua vestimenta original é o uniforme. Ramos deve saber que Moro chegou a dizer que jamais entraria para o ramo da política…

Palavras fazem sentido, certo. Vamos analisar a resposta por partes:
1: "É um cara muito bem respeitado, é um ícone do Brasil. É inegável, ele catalisa". Observem que o ministro não expressa seu juízo sobre Moro, mas o que dizem por aí a respeito do outro.
2: "Agora, ele é extremamente leal ao presidente". A depender do contexto, o "agora" pode valer por uma conjunção adversativa: "mas". Querem ver? "Eu sou um liberal… Agora, não sou um reacionário". Vale dizer: a lealdade ao presidente existe numa relação de oposição, ou tensão, com aquele juízo que o público faz sobre Moro.
3: "Ele diz que não é candidato, e eu acredito. A não ser que ele mude, não vai ser candidato." Aqui o ministro deixa claro que qualquer mudança de ideia entra na categoria da deslealdade. É um militar quem fala.

Não é segredo para ninguém que Bolsonaro ambiciona concorrer à reeleição sustentando-se nas próprias pernas. No pior cenário, há quem veja a possibilidade de ter de se ancorar no ex-juiz como vice, o que, por óbvio, não seria do gosto do presidente porque, caso tal empreitada saísse vitoriosa, seria o segundo a comandar o primeiro. Isso, claro, se Moro continuar Moro até 2022.

O trecho é sintético. "Agora", é muito eloquente. Ramos está dizendo: nada de sonhar com voo solo!

SERPENTÁRIO
O ministro desperta, certamente, a curiosidade de muitos quando afirma:
"A minha relação com ele [Bolsonaro] incomoda, incomoda aqui dentro do governo. Aqui tem esse negócio: é um serpentário, quanto mais próximo do presidente, mais você é alvo. Assim, se você me atinge, atinge o presidente. Existe essa relação."

O serpentário, segundo se entende, está dentro do governo — e, parece, no próprio Palácio do Planalto. Será que o governo, então, dorme com o inimigo? Onde estão as peçonhentas, certamente escolhidas pelo próprio presidente, que não podem ser extirpadas ou vencidas? São as mesmas serpentes que derrubaram, por exemplo, o general Santos Cruz, um homem correto?

Antes, afirmou:
"Sou amigo do presidente desde 1973, servimos juntos, tenho liberdade. Ele mesmo brinca: 'Ramos, nós somos inseparáveis'"

Obviamente, não está falando isso para que seja lido por Bolsonaro. A quem Ramos está enviando uma mensagem que poderia ser dita assim: "Não tentem me derrubar. Eu e o presidente somos amigos, somos íntimos, e ninguém vai conseguir realizar tal intento"?

Não é um recado dado às oposições. Falou às serpentes.

AI-5
Quando alguém fala bobagem sobre o AI-5, o dever dos defensores da democracia é apontar a batatada, seja de autoria de Eduardo Bolsonaro, de Paulo Guedes ou do próprio presidente. E cumpre, por outro lado, saudar a fala correta. E o general disse o que tinha de ser dito a respeito:

"Primeiro tem que entender o que é o AI-5. O AI-5 cassou todos os direitos individuais das pessoas, foi um ato de violência política. O próprio presidente falou: é um pesadelo para quem fala isso. Eu, que sou uma pessoa formada por valores democráticos, nem imagino isso aí."

Destaque-se que o ministro não se limitou a apontar a inoportunidade do debate. Ele classificou o famigerado por aquilo que foi: um ato de violência política — e, pois, inaceitável.

Convém que o general Augusto Heleno decore o texto.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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