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Operação tira sono de Bolsonaro Macbeth e recheia de medo seu peru de Natal

Reinaldo Azevedo

18/12/2019 23h46

Flávio Bolsonaro chegando ao Palácio da Alvorada para um encontro com o pai no dia 8 de maio deste ano (Adriano Machado/Reuters)

A família Bolsonaro entrou na dança para valer. A menos que fatores, vamos dizer, exógenos atuem contra a investigação, o presidente da República terá por muito tempo o sono perturbado. O Ministério Público do Rio desfechou uma operação que atinge o senador Flávio Bolsonaro (RJ) e ex-assessores; seu amigão Fabricio Queiroz e familiares e também Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente, que teve uma penca de parentes contratada pelo gabinete de Flávio. Foram cumpridos ao todo 24 mandados de busca e apreensão.

Novos elementos da investigação vêm à luz. Talvez tenham alguma explicação, mas parecem de espantosa heterodoxia. A empresa Santa Clara Serviços, que pertence ao policial militar Diego Sodré, por exemplo, depositou na conta de uma loja de chocolates, que pertence a Flávio, R$ 120 mil, em oito parcelas, entre agosto de 2017 e janeiro de 2018. Sodré e sua empresa já foram alvos de uma investigação da corregedoria da PM por oferecer serviço ilegal de segurança privada. Pode não ser o caso, mas essa é uma das táticas empregadas pela milícia. Sodré pagou um dos boletos da prestação de uma cobertura comprada pelo agora senador, que está em nome da sua mulher.

O calvário dos Bolsonaros começou em janeiro do ano passado, quando o Coaf enviou ao MP relatório com movimentações atípicas de Queiroz que somaram R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 a janeiro de 2017. A quebra do seu sigilo revelou outros R$ 2 milhões repassados por 13 assessores entre 2007 e 2018. Entre os depositantes, estão a mulher e a mãe do ex-capitão Adriano da Nóbrega, foragido e acusado de comandar o "Escritório do Crime", milícia na Zona Oeste do Rio à qual pertencem Ronnie Lessa e Edson Queiroz, assassinos da vereadora Marielle Franco.

DE PERDER O SONO
No dia 6 de dezembro, começava assim a minha coluna na Folha:
O presidente Jair Bolsonaro dorme mal. E isso o leva a refletir diante do espelho: "Será que termino o mandato?". Em outras circunstâncias, mais pessimistas, a imagem refletida lhe diz: "Você não termina o mandato". E a prefiguração que lhe tira o sono não está relacionada ao eventual sucesso ou insucesso da política econômica de Paulo AI-5 Guedes.

E escrevi mais adiante:
A investigação sobre as atividades extracurriculares de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz serão retomadas —na verdade, nunca chegaram a estar ameaçadas. Uma economia mais virtuosa ou menos até pode ter algum peso na eventual revelação de escabrosidades de verões passados e presentes. Mas pode não ser ela a definir o futuro. Insônia.

REUNIÃO
Depois da operação desfechada pelo Ministério Público Estadual, o presidente silenciou e decidiu receber Flávio no Palácio da Alvorada. Na sequência, chegaram o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o Zero Três e hoje criador número um de casos, e também Frederik Wassef, advogado da família. Convenham: houvesse motivos para manter o sangue frio, não seria o caso de reagir com tanta rapidez. Até os gramados de Brasília sabem qual foi o tema dos encontros.

Segundo o Parágrafo 4º do Artigo 86 da Constituição, "o Presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções." Assim, ainda que se venha a constatar a existência de um esquema criminoso no gabinete de Flávio quando deputado estadual, tendo o pai como chefe ou cúmplice, pouco importa, Jair Bolsonaro não pode ser responsabilizado antes do término do mandato pelo crime em si. Jurisprudência do Supremo, no entanto, fez uma distinção entre "ser responsabilizado" e "ser investigado". Por esse critério, a investigação poderia acontecer — mas teria de ser conduzida pela Procuradoria-Geral da República —, ainda que a denúncia não pudesse ser apresentada. Não parece que Augusto Aras se disporia a tanto.

Note-se, no entanto, que Bolsonaro precisa tomar cuidado para, no curso do mandato, não atuar de modo a tentar criar obstáculos à investigação. Se o fizer, aí estará cometendo, a um só tempo, crime comum e de responsabilidade. Destaque-se, por óbvio, que o presidente ficaria em situação delicada se fantasmas do passado viessem a assombrá-lo, ainda que se comportasse hoje como um monge franciscano.

A economia dá sinais de recuperação. Mas esta terá uma lentidão tal que não dará ao chefe licença para alguns desaforos. O bolsonarismo acaba de lançar uma espécie de "jihad" (esforço) para ver se consegue tornar viável o tal partido "Aliança Pelo Brasil". A palavra de ordem voltou a ser "contra a velha política". Toda a lambança que está sendo investigada teve como palco o gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj. Flávio é o vice-presidente da futura legenda. As instituições dirão até onde suportam desaforos dessa modalidade de "nova política".

Já se sabe que Bolsonaro dorme mal. Vai ter der caprichar em ansiolítico, hipnótico, sabe-se lá. Na Biblioteca do Alvorada, pode dar de cara com "Macbeth", de Shakespeare, e sair recitando pelas vastas solidões do palácio:
"Pensei ouvir uma voz a gritar: 'Não durma mais!/ Macbeth matou o sono!', o sono inocente,/ Sono que deslinda a tessitura das preocupações,/ Morte de cada dia vivido, banho das chagas da labuta,/ Bálsamo da alma dolente, prato principal da natureza,/ Alimento maior na festa da vida".

A festa pode acabar antes da hora.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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