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VÍDEO: Karol, a exemplo de seu algoz, opõe-se à criminalização da homofobia

Reinaldo Azevedo

18/12/2019 16h37

Karol Eller — que apanhou por ser quem é: lésbica — estrelou um vídeo em que desfia as boçalidades do bolsonarismo contra o combate à homofobia. Praticando direção perigosa, já que gravava um vídeo enquanto conduzia um carro, ela diz aos berros:
"Como eu ia dizendo para vocês, todo dia morre um policial, todo dia morre um hétero, todo dia morre um gordo, todo dia morre um negro, todo dia morre (sic) várias pessoas assassinadas. Pelo amor de Jeová! Então menos vitimismo, né? Não é porque uma pessoa morreu ali, um gay morreu, assassinado…, por que é homofobia? Tem muito gay que faz cagada; tem muito hétero que faz cagada, que anda com pessoas erradas. Parem com essa palhaçada de vitimismo, que morre todo dia uma bicha, um sapatão — não é assim que cês falam?"

COMENTO
Pois é…

Um hétero, um gay, um trans, um negro ou uma mulher que morram num latrocínio não estão sendo vítimas, respectivamente, de heterofobia, homofobia, transfobia, racismo ou feminicídio. Pode acontecer, de fato, com qualquer pessoa.

Mas isso está em debate? É pauta?

Quando essa moça estiver com suas feridas físicas curadas, eu a convido a responder a pergunta: "Você apanhou porque é lésbica, Karol?" Sabemos a resposta. Foi, portanto, vítima da homofobia que você nega.

A situação é bem mais grave do que parece. Karol é uma lésbica integrada. Há tempos já se tornou amiga do filho de um político. Seu proselitismo contra medidas de reparação para a população LGBTQ+ lhe rendeu um emprego público.

Imaginem o que não acontece nos bolsões de pobreza das grandes cidades e nos rincões do Brasil com indivíduos que se tornaram alvos permanentes de milícias digitais.

De fato, medidas de reparação e proteção a grupos vulneráveis da sociedade não deveriam depender de ideologia. Entendo ser uma pauta que concerne aos direitos fundamentais.

Em defesa do bolsonarismo, Karol resolveu se voltar contra a militância de outros homossexuais. Assim como Sérgio Nascimento, cuja nomeação para a Presidência da Fundação Palmares está suspensa, escolheu como alvo a luta política de outros negros, como ele próprio.

Ah, seria certamente um ganho para o debate se Karol e Sérgio expressassem um entendimento, vamos dizer, "de direita" — ou não-esquerdista — da emancipação de pessoas discriminadas apenas por serem quem são. Não gostam das políticas públicas levadas a efeito até agora? Propõem, então, quais?

Ocorre que eles são negacionistas. Não reconhecem o problema. Ou pior: opõem-se a medidas em curso em defesa desses vulneráveis. E, para a satisfação dos algozes que os têm como sua lésbica e seu negro de estimação, usam a si mesmos como exemplo.

É como se ela dissesse: "Sou lésbica e nego a homofobia; logo, a homofobia não existe!" E o outro: "Sou negro e nego o racismo; logo, o racismo não existe".

O ataque a uma lésbica bolsonarista agride tanto a condição humana como a uma lésbica do PT ou do PSOL. Mas a igualdade para aí.

A segunda vítima, uma hipótese neste raciocínio, pede que os crimes de ódio tenham majorada a pena aos agressores e cobra que o Estado assuma a sua parcela de responsabilidade.

Karol, infelizmente, construiu a sua militância culpando a vítima.

É claro que ela não merece apanhar. Merece refletir.

E se, curada, mantiver o discurso reacionário e contrário à garantia de direitos fundamentais a outros que exibem a sua mesma condição? Nada a fazer a não ser lamentar e combater a estupidez.

Ainda assim, terá sido vítima de homofobia. Ainda assim, estará viva só porque o agressor decidiu que era hora de parar de bater. Com certeza, a exemplo de Karol, ele é contra a criminalização da homofobia.

Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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