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Se o agronegócio ceder a balas e motosserras dos Bolsonaros, vai se dar mal

Reinaldo Azevedo

29/04/2019 21h42

O agronegócio brasileiro está brincando com o perigo ao dar seu apoio incondicional, cego, a Jair Bolsonaro em vez de lhe impor limites. E o faz, por incrível que pareça, por puro, como diria o presidente, "viés ideológico" — ou, se quiserem, "cegueira ideológica". O setor no Brasil está entre os mais competitivos do mundo. Em algumas áreas, é O MAIS! Não alcançou essa posição brincando de faroeste, mas investindo em tecnologia; não chegou a tal lugar demonizando o meio ambiente, mas reconhecendo que esse é hoje um ativo importante. Não logrou tanto sucesso porque olhou apenas para o próprio umbigo. Não! internacionalizou-se. Estudou os mercados mundiais, procurou baratear custos, investiu em pesquisas. Sim, existe o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), de que sempre fui crítico. Mas será que ele é hoje um entrave à produção a ponto de se propor uma legislação que pode encharcar de sangue o solo brasileiro, comprometendo uma reputação construída ao longo de muitos anos?

Por que isso tudo? Em visita à Agrishow (Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação), que foi aberta nesta segunda-feira (29) em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), o presidente brasileiro afirmou o seguinte:
"Vai dar o que falar, mas uma maneira que nós temos de ajudar a combater a violência no campo é fazer com que, ao defender a sua propriedade privada ou a sua vida, o cidadão de bem entre no excludente de ilicitude. Ou seja, ele responde, mas não tem punição. É a forma que nós temos que proceder. Para que o outro lado, que desrespeita a lei, tema vocês, tema o cidadão de bem, e não o contrário".

É só o apelo em favor da barbárie, nada mais. E demonstra a obsessão por armar o país. Essa, aliás, é a ladainha na extrema-direita populista no mundo inteiro. Bolsonaro, como sabemos, quer liberar e generalizar o porte de armas no Brasil. Em 2016, segundo o Atlas da Violência, o país chegou à taxa escandalosa de 30 homicídios por 100 mil habitantes. Os defensores do armamento, diante de tais números, pregam o porte de armas como instrumento de autodefesa. Bem, trata-se de uma mentira técnica porque todas as evidências apontam para o contrário: mais armas circulando, mais episódios com armas. Como se vê. E ponto. Ocorre que isso nada tem a ver com autodefesa. Trata-se de puro viés ideológico mesmo, para usar a expressão a gosto do dito "Mito" — quando não é coisa pior e se está apenas diante de um lobista do setor. Querem ver?

O CASO DA ESPANHA
Santiago Abascal, líder do neofascista Vox, na Espanha, fez da defesa da mudança da lei de armas no país um dos pilares de sua campanha. E olhem que ele não se atreve a falar em porte, não! Naquele país, mesmo a posse de armas é extremamente restrita. A pessoa precisa provar a necessidade da dita-cuja para defesa pessoal ou caça. E passa por rigoroso teste psicológico. Em qualquer caso, é necessário demonstrar que tem um lugar seguro para guardá-la. A Espanha tem uma das mais baixas taxas de homicídios do mundo: 0,7 por 100 mil habitantes. Segundo os números de 2016, a do Brasil já é 41,8 vezes maior sem a liberação do porte. Vejam que coisa! A Espanha tem um IDH altíssimo: 0,891. Mas o dos EUA é maior: 0,924. Neste país, em que as pessoas se armam sem restrições, mata-se seis vezes mais do que naquele.

Lembro o caso espanhol só para deixar claro que não é a ocorrência reiterada de casos de violência que justifica essa militância em favor das armas. Como a Espanha deixa claro, um país desarmado costuma apresentar baixas taxas de homicídio. "Mas e o Brasil?" Ora, o nosso país está armado até os dentes. Precisamos é de uma política de segurança pública que desarme os bandidos, não de outra que, sob o pretexto da autodefesa, instauraria um clima de faroeste.

Toquei nesse assunto para evidenciar que esse negócio de arma não depende da realidade concreta ou dos números. Trata-se de uma militância — que, no entanto, pode ser muito perigosa.

BRINCANDO COM O PERIGO
O agronegócio brasileiro está brincando com o perigo e está se deixando conduzir por radicalismo ideológico e pouco pragmatismo. As ações do ministro Ricardo Salles nos órgãos ligados ao meio ambiente seguem rigorosamente as instruções de Jair Bolsonaro. O ânimo é de confronto permanente e desmonte da estrutura de fiscalização. Se existem maus funcionários, que sejam substituídos. Se não podem ser demitidos, que sejam submetidos a procedimentos administrativos. Mas ninguém teve notícia, até agora, de restrições de natureza técnica. O que se constata é uma espécie de incursão punitiva na área para a) demonstrar quem manda; b) evidenciar que são outras as prioridades. Mas quais?

O senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente, apresentou em conjunto com o colega Marcio Bittar (MDB-AC) projeto de lei que retira do Código Florestal o capítulo que trata da reserva legal obrigatória em propriedades rurais. Se conseguisse lograr seu intento, seria um desastre para o agronegócio brasileiro porque isso implicaria avançar, efetivamente, em áreas hoje protegidas. Quem detém uma propriedade rural na Amazônia, por exemplo, sabe que tem de manter 80% da vegetação nativa, podendo explorar 20% da propriedade. Se o texto de Flávio fosse aprovado, a primeira consequência seria, por óbvio, o aumento do desmatamento — inclusive da universalmente conhecida Amazônia, o que contribuiria para jogar uma mácula em todas as commodities agropecuárias do Brasil. Aquilo que se construiu durante anos seria destruído por cegueira ideológica e por chicana antiambientalista.

EXAME DE CONSCIÊNCIA
Aqueles que hoje são realmente players do agronegócio têm de se perguntar se essas iniciativas do governo ou do governismo atendem às demandas do empresário rural regularizado, que se enquadra nos rigores da lei, ou se são propostas de quem ainda entende que o país é uma fronteira a ler ocupada com um pouco de fé, quem sabe — essa gente adora falar em Deus —, mas sem lei e sem rei: sem limites e sem um Estado ordenado. Não foi assim que o agronegócio se tornou o que é. Aliás, outra dúvida me toma: qual foi mesmo o grande mal que os 13 anos de governo petista fizeram ao setor? Alguém conseguiria redigir uma redação de 20 linhas? A pergunta é importante porque, diante de qualquer restrição às maluquices em curso, logo aparece um idiota para gritar "Petista!" Ok. Eu adoro desafios. Digam, então, que mal o PT fez ao agronegócio em particular. Desmatador não vale. Isabella Teixeira, que não é do PT, foi uma excelente ministra da área. E foi sob o governo petista que se aprovou um Código Florestal que conciliou preservação com produção. Desafio qualquer um, inclusive do setor, a provar o contrário.

Se o agro aderir à falta de juízo de Bolsonaro e família, o armamento do campo e a frouxidão ambiental, como quer o presidente, vão atingir o coração do negócio. Querem apostar?

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Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.


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