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Barroso, parece, quer liderar esforço para jogar sujeira debaixo do tapete

Reinaldo Azevedo

12/06/2019 06h13

"Ah, liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome!"

É o que teria dito Manon Roland, pouco antes de ser guilhotinada pelos jacobinos tarados por sangue, no dia 8 de novembro de 1793. Sim, ela era uma entusiasta do período que ficou conhecido como "Revolução Francesa". Os que ficaram cegos de tanta luz só conseguiam aplacar a sua sede de justiça tomando todos os dias seus copos de sangue.

"Ah, combate à corrupção, quantos crimes se cometem em teu nome", poderíamos dizer hoje em dia. E olhem que o fervor revolucionário apelava, como destaquei, à paixão cega, nefasta como todo extremismo. O lava-jatismo, nesse particular, carrega todos os malefícios da ação sectária, mas sua convicção é falsa como nota de R$ 3. Os jacobinos tinham a paixão homicida dos abduzidos pelo moralismo extremo; algumas das vozes mais estridentes do lava-jatismo emprestam ares de crença ao que é ação calculada para tomar o poder. E mesmo seus prosélitos tardios, como o ministro Roberto Barroso, do Supremo, estão adicionalmente tentando reescrever a própria biografia. Somam a tudo o que há de ruim no movimento organizado para assaltar a República o desvio de caráter do oportunismo.

Em entrevista ao blog da jornalista Andréa Sadi, afirmou o ministro que, depois dos vazamentos publicados pelo site "The Intercept Brasil", a "euforia tomou os corruptos e seus parceiros". Disse mais: "A corrupção existiu, eu até tenho dificuldade de entender um pouco essa euforia que há em torno disso se houve algo pontualmente errado aqui ou ali. Porque todo mundo sabe, no caso da Lava Jato, que as diretorias da Petrobras foram loteadas entre partidos com metas percentuais de desvios. Fato demonstrado, tem confissão, devolução de dinheiro, balanço da Petrobras, tem acordo que a Petrobras teve que fazer nos EUA. A única coisa que se sabe ao certo, até agora, é que as conversas foram obtidas mediante ação criminosa. E é preciso ter cuidado para que o crime não compense".

Como Barroso é Barroso, resolveu acrescentar punhos de renda à estupidez e emendou:
"Sou juiz. Os fatos estão sendo apurados. Juiz fala ao final da apuração – e se tiver que falar, nos autos, de preferência. E não é hora de formar juízos sobre isso, ainda. Na vida, o que é certo é certo, o que é errado é errado. Formamos juízo depois da apuração".

Ora, ora… Barroso, já destaquei neste blog, chegou ao Supremo nas asas de grupos militantes de esquerda. O empurrão final, o que acabou determinando a sua indicação, foi ter assumido a causa do terrorista e assassino Cesare Battisti. Nesta página, escrevi à época que não reunia condições para ser ministro porque evidenciava em livro que nem mesmo reconhecia a existência de uma ordem legal. Como suposto pensador do direito, fazia-se porta-voz de ondas influentes de opinião. A onda influente que o levou ao tribunal era de esquerda; agora, é de extrema-direita, e a Lava Jato é a força que a alimenta. Depois de ter servido ao autoritarismo de um extremo; Barroso serve ao de outro.

Quais corruptos estão comemorando? Ele está tentando, de antemão, negar os absurdos trazidos à luz pelo site. O quê? "Desvios aqui e ali?" Então um juiz oferecer a um procurador uma suposta testemunha contra um investigado é só um comportamento inadequado? Não! Trata-se de crime. O juiz, ele sim, praticou vazamento deliberado de gravação que sabia ilegal envolvendo a presidência da República. Mais do que isso: incentivou o membro do Ministério Público a recorrer a uma trapaça para forçar um depoimento. E Barroso vê em tudo isso o fruto de uma espécie de manipulação dos que estão descontentes com o combate à corrupção? Outro não é o juízo da procuradora da República Thaméa ​Danelon, ex-chefe da Lava Jato em São Paulo, em entrevista à Folha.

A Lava Jato se transformou, como resta evidente, num ente que hoje aparelha a República e que pretende submeter os Três Poderes e o próprio Ministério Público à sua rotina de ilegalidades, de arbitrariedades e de direito discricionário. E quem resistir é, então, amigo da corrupção, como quer Barroso, que consegue ser mais sanguinolento do que os jacobinos originais porque tem a fúria dos neoconvertidos.

Chato para a turma, mas o fato é que seus crimes começam a vir à luz. E os criminosos têm de ser punidos. À diferença do lava-jatismo, defendo que as punições sejam aplicadas de acordo com a ordem jurídica que temos, respeitando-se o devido processo legal.

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Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM.

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.


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