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Reinaldo Azevedo

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Os crimes de familiares de Michelle e o mau exemplo de Bolsonaro, o marido

Reinaldo Azevedo

17/08/2019 08h07

Maria Aparecida, avó de Michelle Bolsonaro. Inquilinos do Palácio da Alvorada parecem entender mal até a própria história

Membros da família da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, tiveram enroscos pesados com a Justiça. Isso é notícia? É, sim. Desde, é claro, que não se tente imputar à mulher do presidente a corresponsabilidade por crimes cometidos por familiares.

Mas coisas assim precisam ser noticiadas? A resposta é "sim". Elas dizem respeito, goste-se ou não, ao casal mais poderoso e influente do país no momento. Colaboram para o entendimento da psicologia de personagens da vida real e explicam algumas escolhas que estas fazem.

As informações podem mesmo remeter até a questões de segurança. Parentes muito próximos da primeira-dama envolveram-se em ações criminosas, vivem num ambiente pobre e violento, e é evidente que há o risco de que sejam usados pelo crime como instrumentos de chantagem e extorsão. Estão hoje mais expostos e vulneráveis do que antes.

Segue uma síntese feita pela Folha de reportagens publicadas na Veja e no jornal Metrópoles. Volto em seguida.
*
A primeira-dama, Michelle Bolsonaro, está arrasada e abatida com a publicação de histórias envolvendo sua família, entre elas a divulgação de que sua avó foi presa por tráfico de drogas e que dois tios maternos enfrentam problemas com a polícia, afirmou nesta sexta (16) o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Ao sair de um evento no Palácio do Planalto, Bolsonaro reconheceu que as reportagens publicadas pela revista Veja e pelo jornal Metrópoles sobre a família da primeira-dama são verdadeiras. O presidente questionou, no entanto, o "ganho jornalístico" com a divulgação das informações.

"Quem ganha com isso? Para que esculachar a minha esposa e dizer que ela não tem legitimidade para fazer o trabalho social que ela faz? Ela está abatida, arrasada, para que isso?", disse o presidente.

A avó de Michelle, que ficou dois dias em uma maca num hospital da periferia do Distrito Federal, como revelou a Folha no último sábado (10), tem em seu passado uma prisão em flagrante por tráfico de drogas.

A revista Veja teve acesso a documentos da 1ª Vara de Entorpecentes e Contravenções Penais do Distrito Federal que apontam que, aos 55 anos, ela foi presa em flagrante com pacotes de merla, um subproduto da cocaína.

Maria Aparecida teria confessado o crime, mas, na Justiça, voltou atrás na versão. A avó da primeira-dama foi, então, sentenciada a cumprir pena em uma penitenciária do Gama, região administrativa do Distrito Federal. Lá, foi acusada de subornar um agente para que a levasse para casa.

Maria Aparecida só deixou a penitenciária, em liberdade condicional, em 1999, após cumprir dois anos e dois meses de prisão.

A revista publicou ainda que a mãe de Michelle, Maria das Graças, tinha dois registros civis, um falso e um verdadeiro.

Ela foi investigada pela Delegacia de Falsificações e Defraudações de Brasília e indiciada pela Justiça sob suspeita de falsidade ideológica. O crime prescreveu e o processo foi arquivado, de acordo com a publicação.

Sobre a mãe da primeira-dama, o jornal Metrópoles afirma ainda que ela está inscrita em um programa habitacional do governo do Distrito Federal com um RG emitido em Goiás que contém informações adulteradas.

Disse que, sob nome falso, consta uma ocorrência de lesão corporal em 2007. Ela teria agredido a pedradas um senhor de 62 anos —à época— que seria locatário de Maria das Graças. A mãe da primeira-dama teria alegado que ele estava com aluguel atrasado.

Segundo a Veja, o tio preferido da primeira-dama, João Batista Firmo Ferreira, sargento aposentado da Polícia Militar de Brasília, foi preso em maio deste ano sob a suspeita de integrar uma milícia na favela onde mora com a avó de Michelle. Ele foi um dos poucos familiares que compareceram à posse de Bolsonaro.

O Ministério Público diz que João Batista e sete outros PMs eram o braço armado de uma quadrilha que atuava na venda ilegal de lotes na favela Sol Nascente, por meio de ameaças e eliminação de desafetos. O processo tramita sob segredo de Justiça.

A Veja diz ainda que, nos quase 90 dias em que João Batista está detido na penitenciária da Papuda, em Brasília, o sargento aposentado não recebeu visita ou ajuda de nenhum familiar.

O jornal Metrópoles traz informações sobre outro tio materno de Michelle, condenado, em 2018, a pouco mais de 14 anos de prisão por estupro. A denúncia foi feita por duas sobrinhas do tio da primeira-dama, que revelaram que o crime ocorreu quando eram crianças.

O avô materno de Michelle, prossegue o jornal, foi assassinado brutalmente, em investigação que concluiu que o crime foi latrocínio —roubo seguido de morte.

No último sábado (10), a Folha revelou que Maria Aparecida Firmo Ferreira, 78, estava, havia mais de dois dias, em uma maca, com outros pacientes, no corredor do Hospital Regional de Ceilândia. Após a publicação da reportagem, a idosa foi transferida para o Hospital de Base, unidade com mais estrutura.

Lá, passou por uma cirurgia de urgência por causa de uma fratura na bacia, da qual ainda está se recuperando —a assessoria do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal não quis informar o estado de saúde da idosa ou a previsão de alta.
(…)

RETOMO
Bolsonaro está sendo injusto, o que não surpreende quando o assunto é imprensa, ao se referir às respectivas reportagens de Veja e Metrópoles. Nem uma nem outra conferem tratamento escandaloso ou sensacionalista ao que é, obviamente, notícia pelas razões já aqui expostas.

A Veja vê nos dados colhidos uma espécie de explicação e justificativa para o distanciamento que Michelle guarda da família. O Metrópoles escolhe um viés mais sociológico, inscrevendo a própria primeira-dama entre os contrastes que marcam o país governado por seu marido.

Em nenhum momento há a tentativa de imputar a Michelle corresponsabilidade pelas escolhas erradas feitas por seus parentes ou a sugestão de que ela carregue algum desvio de caráter em razão da origem.

E, reitere-se, qualquer inquilino do Palácio da Alvorada com essa história seria objeto de reportagens. A imprensa cumpre seu papel. E, por óbvio, é preciso lembrar quem é o marido de Michelle, que tipo de comportamento ele incentiva das redes sociais e que políticas públicas aplica.

O MARIDO
Jair Bolsonaro tem uma abordagem absolutamente detestável da criminalidade, da pobreza e dos problemas sociais. É evidente que pobre não é sinônimo de bandido — os criminosos ricos e poderosos do Brasil, como sabemos, provocam muito mais estragos —, mas ignorar que as pessoas socialmente vulneráveis ficam à mercê da bandidagem corresponde a negar o óbvio. E essa ignorância pode resultar em políticas de segurança pública equivocadas, violentas e contraproducentes, a exemplo daquilo a que se assiste no Rio de Wilson Witzel.

A história familiar de Bolsonaro, como se vê, é mais próxima da pobreza e do crime do que se imaginava. Que bom seria se isso contribuísse para abrir os olhos e a mentalidade do governante, chamando a sua atenção para a importância de ações do Estado que afastem milhões de brasileiros do que constitui uma rotina de exclusão.

Não tem acontecido. A reação do presidente às 58 mortes no presídio de Altamira, no Pará, com 16 presos decapitados, atingiu o nefando. Recomendou aos jornalistas que fossem perguntar o que pensavam a respeito as vítimas dos mortos, ignorando que estavam em uma instituição estatal, que deveria garantir a sua segurança. Ao disparar a frase boçal, endossava os julgamentos e execuções dos tribunais dos partidos do crime.

Fosse outra a primeira-dama, com idêntico perfil familiar, e a imprensa estaria cumprindo o seu papel: informar. Sendo Bolsonaro quem é, a notícia ganha um sentido especial porque, segundo os valores que vocaliza por aí, todos estão dispensados de receber um tratamento digno, segundo dispõe a Declaração Universal dos Direitos do Homem.  

A EXPLORAÇÃO
Não! Não se está fazendo baixa exploração dos vínculos da primeira-dama com familiares criminosos, de antes ou de agora. Ao contrário: fez-se questão de marcar o distanciamento, obviamente excessivo: por mais restrições que Michelle tenha ao comportamento pregresso da avó, o abandono a que está relegada aquela senhora é inaceitável.

E, aqui, cumpre fazer uma observação, caminhando para o arremate. Posso imaginar — ou nem dá para fazê-lo, já que é difícil pôr-se na pele de quem não tem limites — o que estariam dizendo nas redes sociais os bolsominions se parentes de um líder de esquerda ou de um adversário de Bolsonaro tivessem tal perfil.

Ora, há dias, vimos o presidente da República tratar um drama familiar com as tintas do deboche, da mentira e da truculência, sob o aplauso dos seus fanáticos. Refiro-me a todas as indignidades que disse sobre Fernando Santa Cruz, pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB. Fernando foi preso, torturado e assassinado pela ditadura em 1974. Seu corpo, provavelmente incinerado, nunca foi encontrado. Dias depois, o presidente voltou a cantar as glórias do torturador Brilhante Ustra.

Sim, o bolsonarismo usaria politicamente contra um adversário uma família com o perfil da de Michelle. E, como se sabe, para essa turma, é irrelevante saber se o que espalha é verdade ou mentira. Bolsonaro teve ao menos o bom senso de reconhecer que as reportagens não mentem.

Acho que o presidente e sua mulher estão moralmente obrigados a prestar assistência a essa parte da família que pegou a trilha errada. Se o fizessem, dariam um bom exemplo ao país.

Michelle não tem de ficar "arrasada". Tem é de fazer as escolhas certas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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