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Reinaldo Azevedo

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Bolsonaro tem de nomear Ricardo Salles o titular do Ministério da Riqueza

Reinaldo Azevedo

19/08/2019 06h49

Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente: desempenho patrimonial espetacular em prazo curto (Foto: Nacho Doce/Reuters)

O Brasil está diante de um milagre da multiplicação do patrimônio: Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente. Seus bens crescem a uma velocidade só compatível com o desmatamento da Amazônia.

Estamos diante de um prodígio. Oficialmente um liberal mais ortodoxo do que caixinha de Maizena (pego a imagem emprestada de crônica de Luis Fernando Verissimo), Salles conseguiu fazer com que seu patrimônio crescesse 528%, em termos nominais, em seis anos. Saltou de já apreciável R$ 1,4 milhão em 2012 para R$ 8,8 milhões em 2018.

Fabuloso!

Se notarem, a peça de resistência do governo Jair Bolsonaro é tentar demonstrar ser este um governo de homens comuns, não de políticos tradicionais ou de membros da elite brasileira.

Em certo sentido, inexiste, de fato, o que se poderia chamar de "elite" na atual gestão. Lá está no Dicionário Houaiss, na primeira acepção: "elite" é "o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social". Não, este não é um governo de… elite! Voltemos a Salles, um homem incomum.

O desempenho patrimonial do rapaz é intrigante caso se considere a sua atividade no intervalo em que seus bens cresceram 528%. Em março de 2013, tornou-se secretário particular do então governador Geraldo Alckmin (PSDB), real e sabidamente um homem de posses modestas. Deixou a função no ano seguinte.

Voltou ao governo como secretário do meio ambiente em julho de 2016, sendo substituído em agosto de 2017 por pressão do seu próprio partido à época: o PP. Saiu da pasta acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público em razão de supostas irregularidades no plano de manejo da APA (Área de Proteção Ambiental) do rio Tietê.

Salles também não consegue multiplicar votos como multiplica o patrimônio. Candidatou-se a deputado federal em 2006 e em 2018 e a estadual em 2010. Nunca conseguiu se eleger. É um dos fundadores de um suposto movimento de extrema-direita de que é a única figura conhecida: "Endireita Brasil". No momento, está filiado ao Novo, mas já pertenceu ao então PFL e ao PP.

Salles teve pouco tempo para advogar de 2012 a esta data, como vocês podem ver acima. Não obstante, foi o período em que seu patrimônio pessoal disparou. Em 2012, disse à Justiça Eleitoral que era dono de 10% de um apartamento, aplicações financeiras, um carro e uma moto, perfazendo R$ 1,4 milhão. Seis anos depois, seus R$ 8,8 milhões estão assim distribuídos: dois apartamentos avaliados em R$ 3 milhões cada, R$ 2,3 milhões em aplicações e um barco de R$ 500 mil.

INVESTIGAÇÃO
O Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para apurar desempenho tão notável. Dois pedidos de quebra de sigilo já foram recusados pela Justiça. A autora da representação que deu início à investigação foi a Sppatrim Administração e Participações, que, informa o Estadão, pertence à "família de Luiz Eduardo Bottura, um engenheiro e empresário que há cerca de quatro anos trava disputas judiciais com o atual ministro do Meio Ambiente." Diz-se perseguido pelo político.

Como advogado, Salles já participou de causas polêmicas, como revela reportagem do site "The Intercept Brasil".

Não consta que tenha recebido alguma herança no período. Talvez seja mesmo um caso raro e notável de gênio da advocacia, que desperta, de súbito, para grandes realizações na profissão. E realiza os tais prodígios.

Quando deixou a advocacia para ser secretário particular de Alckmin, em 2013, quase foi preso por não pagar pensão alimentícia de R$ 3 mil aos filhos. Chegou a dever R$ 28 mil para a ex-mulher, com um salário de R$ 12 mil. Alegou que não tinha condições de arcar com o pagamento. Aí a sorte, pelo visto, começou a lhe sorrir.

Nada de nomear Salles para o Ministério da Economia caso Paulo Guedes venha a cair fora. Desde já, Salles tem de ser o titular do Ministério da Riqueza.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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Sobre o autor

Reinaldo Azevedo, jornalista, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. É autor de "Contra o Consenso", "O País dos Petralhas I e II", "Máximas de um País Mínimo" e "Objeções de um Rotweiler Amoroso".

Sobre o blog

O "Blog do Reinaldo Azevedo" trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

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